Carta do Gestor - Setembro de 2021

Prezados cotistas,


O mês de setembro foi o terceiro seguido de queda do IBOVESPA, dessa vez de 6,57%. Nosso portfólio superou o desempenho do índice em quase 3%, fechando com queda de 3,63%. Diante das perspectivas de redução nas compras de títulos pelo FED, já a partir de novembro, o dólar se fortaleceu contra a cesta de moedas, em 1,7%, e em particular contra o Real, que se depreciou em 5,5%.


Foi um mês bastante movimentado, tanto no cenário internacional quanto no cenário doméstico. No cenário internacional, além da fala de Jerome Powel, a segunda maior incorporadora chinesa, a Evergrande, está enfrentando problemas de liquidez. Alguns chegaram a considerá-la tal como uma versão chinesa da Lehmann Brothers, com potencial de provocar nos mercados um efeito em cascata, no caso de sua falência. Não temos essa visão catastrofista. Apesar de possuir uma dívida que supera os USD 300 bi, uma parte considerável é detida pelos mutuários e, diferentemente de um banco, não tem a mesma alavancagem. Também consideramos que faz mais sentido para as autoridades chinesas a busca por uma solução controlada, evitando uma crise de confiança sobre as demais incorporadoras.


Há uma crise energética que atinge as principais economias do planeta. Nos últimos anos, o foco de diversas empresas foi na busca por fontes alternativas de energia. A retomada da atividade e a consequente alta na demanda por petróleo levou a uma alta de quase 15% no preço do barril. A OPEP tem sido relutante em aumentar a oferta, buscando recuperar o fluxo de caixa dos países membros, muito afetado durante os meses de lock-down. “Fique em casa que a economia a gente vê depois”. Essa frase resume bem o que estamos assistindo. O depois chegou. Diversas cadeias de suprimento ainda não foram plenamente reestabelecidas enquanto o forte assistencialismo levou à uma pressão de demanda. Como resultante, os preços estão subindo. No Brasil, ainda há quem tema por algum tipo de interferência do governo sobre os preços dos combustíveis, apesar das inúmeras provas de que este governo e a atual gestão da Petrobrás respeitarão o Estatuto Social da empresa.


No dia 7 de setembro, tivemos a maior manifestação popular já vista no país. Milhões de brasileiros tomaram as ruas por diversas cidades do país, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, em apoio ao presidente Bolsonaro e o respeito à Constituição Federal. Após este ato, o presidente se reuniu com o ex-presidente, Michel Temer, e enviou uma carta à nação, que pode ser vista como um sinal de “não beligerância” entre os poderes.


A temperatura, que vinha se elevando, baixou. Havia uma grande preocupação com riscos de ruptura institucional, de lado a lado, mas ao que tudo indica serão deixadas para o debate político. Na semana subsequente, seria a vez da oposição ao governo mostrar a sua força, mas faltou gente nas ruas. Como já havíamos mencionado, não há, no momento, uma “terceira via”. Poucos milhares de manifestantes se esforçaram para ocupar um quarteirão da Av. Paulista, sem sucesso. O COPOM elevou a taxa básica de juros em 1%, para 6,25% e já sinalizou um aumento equivalente no final de outubro. Todo o esforço do BC visa trazer as expectativas de inflação de 2022 para próximo da meta de 3,5% ou, ao menos, evitar que siga se afastando desta, em direção ao limite de 5%.


O destaque do mês foi a alta de 20% das ações da JBS em função das fortes margens operacionais, principalmente nos EUA. Aproveitamos esse movimento para sair desta posição em favor do aumento das posições nas empresas produtoras de commodities, que seguirão se beneficiando do Real mais fraco e da forte geração de caixa nos próximos trimestres e de algumas posições mais voltadas para a atividade doméstica e que se encontram bastante descontadas pela combinação da alta da curva de juros e do aumento dos riscos fiscais. Depois de um ano e meio de pandemia e com quase toda a população alvo vacinada, sendo que 60% desta com a imunização completa, podemos dizer que a vida no Brasil está praticamente de volta à normalidade. Acreditamos que neste quarto trimestre que ora se inicia, ainda teremos sinais de retomada, tanto no varejo quanto nos serviços, de forma que esperamos que as empresas de nosso portfólio sigam com resultados bastante satisfatórios.


Alguns segmentos como aqueles relacionados aos Shopping Centers, só agora no último trimestre do ano é que terão o funcionamento normalizado. No caso de educação, só a partir de 2022 é que saberemos a extensão exata da paralização tão longa que enfrentaram entre 2020 e 2021. O lado positivo é que os ajustes na operação já foram realizados, assim como o provisionamento para as perdas ainda em curso. Os preços dos ativos brasileiros nos parecem bastante atrativos, pela combinação de diversos riscos potenciais simultaneamente, como se todos os males fossem se materializar. Isso faz sentido?


Apesar do grande sucesso da vacinação, a pandemia tem sido tratada pela oposição como se fosse culpa do Presidente da República, ainda que outras 33 nações tenham tido mais casos por milhão do que o Brasil, algumas das quais consideradas como modelo de ação, como foi o caso de Israel, e como se os Estados e Municípios não tivessem recebido do STF a autorização para decidirem como agir em relação à pandemia. E isso repercutiu, de forma amplificada, fora do Brasil.


Estamos atravessando a maior estiagem do século, o que levou ao aumento do preço nas tarifas de energia, além do maior risco de racionamento, dada a grande participação da energia hidroelétrica em nossa matriz energética. Isso poderia implicar em fortes efeitos, tanto sobre a atividade quanto sobre os preços. O acionamento das usinas termoelétricas tem ajudado a afastar esse risco, a campanha eleitoral foi antecipada. Com a reabilitação do ex-presidente Lula, condenado a mais de 12 anos de prisão e de seu discurso antimercados, o investidor mais cauteloso prefere aguardar olhando “de fora”. Ainda é cedo para avaliarmos esse risco.


A apatia de Lula desde que saiu da prisão não pode ser ignorada, principalmente levando-se em conta seu passado de sindicalista militante. Por fim e não menos preocupante, a trajetória fiscal pode pressionar ainda mais a inflação, levando o BC a um ciclo mais forte e mais longo de aperto monetário, o que teria maior impacto sobre a atividade. Na prática, temos visto que a Fazenda segue sendo criteriosa com as despesas e com a arrecadação surpreendendo positivamente. A eventual prorrogação da política assistencialista para 2022, caso de fato ocorra, será combinada ou com a reforma tributária ou com a PEC dos precatórios. Não acreditamos que o “teto dos gastos” será desrespeitado.


Acreditamos que em mais 2 ou 3 meses, teremos uma maior clareza quanto a estes riscos e a dinâmica da inflação tende a melhorar bastante, o que deve contribuir para a melhora da popularidade do presidente e redução dos riscos políticos. Como sempre, reafirmamos que os ruídos estarão sempre por aí, nos oferecendo melhores momentos e oportunidades de investimentos. As boas empresas já enfrentaram conjunturas bem mais adversas e, a cada novo ciclo, saem mais fortalecidas.



Alocação setorial - GTI Nimrod FIA




Atenciosamente,

André Gordon.