Carta do Gestor - Outubro de 2015

Prezado investidor,


No mês de outubro, infelizmente, ainda não conseguimos alterar o script dos últimos meses. A volatilidade em nosso mercado permaneceu elevada, sem relevantes alterações tanto no campo político quanto econômico.


O destaque do mês ficou por conta do discurso um pouco mais duro de FED norte-americano indicando que poderá haver, ainda este ano, o início do processo de elevação nas taxas de juros. O mercado ainda se encontra dividido uma vez que os indicadores econômicos seguem indicando uma economia crescendo moderadamente e com a inflação sob controle. Já o BCE sinalizou que seguirá com sua política monetária mais frouxa. A Europa precisa de taxa de câmbio mais depreciada para que o setor exportador possa liderar a retomada de crescimento.


A bolsa brasileira, depois de forte alta no início do mês, apresentou forte correção e fechou o mês com alta modesta, de 1,79 %. Nosso fundo acompanhou o mercado, fechando com elevação de 1,9%.


No campo político houve um revés na estratégia desenhada pelo presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha no rito para o impeachment. O STF entendeu que não caberia ao plenário requerer a abertura do processo no caso em que o próprio presidente optasse pelo arquivamento. Neste cenário atual, ao presidente da Câmara cabem três alternativas: rejeitar os pedidos, acatar os pedidos e iniciar o rito do processo de Impeachment ou ainda deixar o tempo correr, já que não há prazo legalmente estipulado para a análise. Neste caso Cunha ganharia tempo, já que ele próprio está implicado indiretamente na Operação Lava-Jato e precisará se defender no Comitê de Ética.


Esse movimento, que uns consideraram apenas uma tecnicalidade, pode esconder agravantes como uma intervenção incomum do STF no Poder Legislativo e ainda um possível “acordão” entre o governo Dilma e Cunha no sentido de “você alivia a minha situação que eu seguro o Impeachment”.


Sinceramente, não temos insumos para afirmar nem que sim e nem que não este tipo de acordo criminoso estaria acontecendo em plena luz do dia e às vistas de todos os brasileiros, apesar da cobertura bastante tímida e envergonhada de boa parte da mídia nacional. Esperamos que para o bem deste país que a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça sigam funcionando de maneira autônoma e que o Eduardo Cunha cumpra sua função e prerrogativa enquanto presidente da Câmara.


Em meio a esta negociata vergonhosa, ainda mais vergonhosa é a postura do “principal partido de oposição”, o PSDB. Com uma oposição assim, nenhum governo precisa se preocupar com inimigos políticos. Ao invés de capitalizar para si a insatisfação popular se aproveitando dos mais de 50 milhões de votos opositores ao atual governo, o PSDB tem se colocado como opositor ao atual presidente da Câmara dos Deputados e aquele que teria a prerrogativa a capacidade de fazer o processo de impeachment acontecer. Acreditamos que ao longo do mês de novembro teremos um posicionamento de Eduardo Cunha para o bem ou para o mal e a partir dai teremos maior visibilidade quanto aos eventos futuros. Seguiu-se ao longo do mês a especulação sobre a saída do Ministro Levy, negada por ele, mas não houve nenhum avanço quanto às votações no Congresso das medidas de ajuste fiscal. A cada tentativa de votação, uma nova derrota do governo.


Em meio a este cenário turbulento e desafiador, finamente fechamos um acordo com a PGI em relação à compra das ações da Providência, nossa então segunda maior posição com 15% do fundo. Provavelmente este foi o mais longo período de oferta de ações na história recente, tendo durado 1 ano e 10 meses do anúncio da compra de controle até o fechamento da operação. Não deixa de ser mais uma mancha em termos de governança corporativa em nosso debilitado mercado acionário. Chegou-se ao absurdo da empresa que fez a oferta pelas ações da Providência, a PGI, ter sido ela própria objeto de uma oferta de aquisição por parte da Berry Plastics. Aceitamos um desconto ao preço original, em torno de 6% para receber em dinheiro à vista, ao invés de ter quase um quarto dos recursos retidos por tempo indeterminado e nas mãos de grupos os quais não tínhamos nenhum motivo para confiar.


Gostávamos muito da empresa antes da mesma ter sido adquirida pela PGI (sob o controle da Blackstone). Depois desta aquisição e que disparou o direito de tag along, a visibilidade quanto a empresa foi bastante reduzida e de certa forma ficamos reféns de controladores absolutamente desalinhados com os acionistas minoritários e sob um olhar bastante tímido da CVM. Por outro lado, o fato de ter um preço de referência garantido impediu uma depreciação maior das ações ao longo destes últimos meses em conformidade com o IBOVESPA.


Optamos por reinvestir estes recursos em ativos de maior beta, de forma a aproveitar tanto os baixos preços dos ativos reais brasileiros quanto a recuperação de preços que acreditamos que estes ativos virão a ter no caso do processo de impeachment ser iniciado. Esta posição não é consenso no mercado. Há grupos que acreditam em riscos de maior radicalização do governo, sob maior pressão ou ainda um vácuo de poder que poderia culminar com uma intervenção militar.


Por fim, percebemos que houve certa acomodação da taxa de câmbio num patamar depreciado e que torna os ativos brasileiros muito atrativos para investidores de longo prazo. Diversos grupos estrangeiros têm feito aquisições por aqui recentemente, entre os quais a Coty, tendo comprando um portfólio de marcas da Hypermarcas, pagando um valor bastante superior ao que o mercado indicava e o grupo israelense Gazit, que segue comprando participação em mercado da BR Malls, além de diversos fechamentos de capital como a mencionada Providência e a BAT fechando o capital da Souza Cruz entre outros. Este ciclo de aquisições deve continuar e quiçá se acelerar nos próximos meses.


Por fim, há uma janela de oportunidades para aqueles que acreditam no longo prazo para este país e que a Lava-Jato trará melhoria na governança como um todo. O risco é que o calvário seja prolongado até as próximas eleições. Lembramos que a porta de entrada, assim como a de saída, costuma ser estreita para eventos não antecipados pelo mercado.


Atenciosamente,

André Gordon

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