Carta do Gestor - Dezembro de 2025
- André Gordon
- 6 de jan.
- 6 min de leitura
Prezados cotistas,
Dezembro foi um mês positivo para os mercados domésticos, com novos recordes sendo atingidos em sua primeira semana. No dia 5, tivemos o “Flavio`s day”, quando o IBOVESPA caiu 4,31%, sua maior queda diária desde 22/02/21. Conforme o mercado “digeriu” a novidade, houve alguma recuperação e o mês terminou com alta de 1,29%, superando S&P500 e Nasdaq, que caíram 0,05% e 0,73%. O Real se depreciou 3,8% em relação a cesta de moedas e 2,6% em relação ao Dólar.
Nossos fundos GTI DIMONA, GTI HAIFA e GTI NIMROD, superaram o desempenho das principais bolsas e terminaram o mês com altas de 2,13%, 1,81% e 1,43%, respectivamente. A rentabilidade dos títulos de 10 anos do tesouro americano subiu 15 pontos base, para 4,17%.
No dia 5 Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura à presidência da República, tendo recebido tal missão de seu pai Jair. O mercado, que vinha de um forte rally, buscava razões para realização de ganhos. Muitos preferiam que Bolsonaro emprestasse seu apoio ao Governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, entendendo que ele teria menor rejeição em relação à Flávio e maior probabilidade de vitória.
Nós preferimos seguir com posição mais cautelosa, entendendo que até outubro de 2026, “há muita água para passar embaixo da ponte”.
Flávio carrega a rejeição ao pai, mas tentará se vender como um “Bolsonaro menos radical”, mais conciliador e mais palatável ao eleitor de centro, grupo que decidirá o pleito. Flávio já organizou algumas reuniões com banqueiros e agentes de mercado reafirmando que pretende dar continuidade à agenda econômica ortodoxa promovida por Paulo Guedes.
Neste Dezembro, não podemos deixar de mencionar que os EUA aparentemente suspenderam os efeitos da Lei Magnitsky contra o Ministro do STF e sua esposa e que teria sido obtida através de negociações bilaterais onde o Governo Brasileiro teria atendido a demanda dos norte-americanos em relação ao acesso privilegiado às terras raras, ao comedimento das restrições e regulações adicionais às big techs, o respeito ao processo eleitoral.
Não houve nenhum comunicado oficial pelas partes. Houve de fato a aprovação pelo Poder Legislativo de uma Lei que reduz as penas dos condenados em 8/1 em aproximadamente 5/6, com ampla maioria e inclusive acordo com o líder do Governo, Jaques Wagner. Lula deve vetar a Lei e o Congresso deve derrubar esse veto, posteriormente.
O mundo esteve relativamente calmo nesse final de ano, com acomodação da nova política tarifária de Trump, que buscou recolocar os EUA numa posição de maior competitividade e de recuperação de parte de sua indústria. Parte desse movimento tende a ser obtido com o enfraquecimento de aproximadamente 10% que a moeda norte-americana sofreu, assim como algum protecionismo.
Esse movimento do Departamento de Estado norte-americano, entretanto, também foi movido por interesses geopolíticos, qual sejam, recuperar os espaços que as administrações anteriores abriram mão, seja no Oriente Médio, seja em relação a Europa, mas principalmente em relação ao continente americano. Assim como a Doutrina Monroe, em 1823, defendia a “América para os americanos”, livre dos colonizadores europeus e respeitando as independências dos países no continente, hoje temos o que seria a “Doutrina Donroe”, onde os EUA buscam restaurar as alianças que teve com os Países no continente. Foi notável a ajuda dos EUA para a Argentina, oferecendo liquidez e credibilidade ao governo Milei, às vésperas das eleições, assim como não se pode ignorar o bloqueio ora em curso em relação à Venezuela, país que detém importante reserva de petróleo e estava sob a órbita da Rússia e da China.
Nesse contexto também podemos encaixar o Brasil que estava muito mais propenso a migrar para a órbita de influência da China, podendo colocar em risco o suprimento de terras raras, essencial para a indústria relacionada a tecnologia, desde telas de celulares, passando por painéis solares, radares, veículos elétricos, turbinas etc.
Neste final de ano, grande parte das empresas distribuiu um volume recorde de dividendos buscando se antecipar aos efeitos da Lei 15.270/2025 que entrou em vigor em 2026.
A nova Lei passará a tributar em 10% os dividendos que excederem R$ 50 mil mensais por beneficiário. Os dividendos declarados até 31/12/2025 preservarão a isenção tributária, se distribuídos nos próximos 3 anos. Muitas empresas, além dos dividendos, utilizaram suas reservas de lucros para dar bonificação em ações, o que reduz o preço médio do estoque e, ao invés da tributação no presente, acabará implicando o imposto futuro sobre o ganho de capitais.
A empresa de construção, locação e venda de galpões logísticos, Log Commercial Properties em 2025 teve um dividend yield aproximado de 25% sobre o valor da ação no início do ano. Já a SLC Agrícola, mesmo num ano onde o preço da soja e do algodão tiveram correções importantes, teve um yield de 11%, além de 12,5% de bonificação. A Vale teve yield de 15%, a Unifique, já anunciando parte da distribuição para os próximos 3 anos, pagou quase 30%, além de bonificar 10,2%. Blau teve yield de 8,5%, Odontoprev de 14% e a Itaúsa superou os 20%, em relação ao preço em que iniciou o ano.
Além dessa farta distribuição de proventos, diversas empresas anunciaram e fizeram recompra de ações. Entre essas, a Tupy, a Vale, a Gerdau, a Suzano.
Esse fluxo de caixa distribuído não impediu o investimento para expansão em empresas como a SLC, Unifique, Blau ou mesmo em melhora de produtividade. É o reflexo de um portfólio composto de empresas resilientes e que tendem a seguir com bom desempenho, apesar da instabilidade política e desequilíbrios macroeconômicos. Também é o reflexo de um portfólio que entra 2026 sendo negociado a P/E estimado de 8 vezes e EV/EBITDA de 4,3 vezes. Dividendos estimados em 5,4%.
Em 2025 nosso principal fundo, o GTI DIMONA, teve alta de 20,5%, abaixo do IBOVESPA, mas muito acima do CDI. Seguimos nossa disciplina, que busca o investimento em empresas que tenham potencial de retorno consistente para os próximos anos, mas que sob intempéries, tendem a prevalecer em relação às concorrentes devido a diversas vantagens competitivas. Entramos 2026 com a mesma visão, sabendo que diversas empresas nas quais investimos, fecharam o ano com queda de preços, apesar de bons resultados e boas perspectivas. Acreditamos que mais cedo ou mais tarde, parte desse valor será refletido nos preços. SLC fechou o ano em queda de 0,55%, Suzano de 15%, São Martinho caiu 33,4% no ano ou quase 15% de nosso preço de aquisição. Temos quase um quinto do portfólio desse segmento, que sozinho já poderia explicar a diferença em relação ao Ibovespa em 2025.
O segmento de industriais também foi grande detrator de valor com nossas empresas sentindo a desaceleração na demanda, principalmente de segmentos voltados para o Agro. Randon caiu mais de 40% mesmo com o bom desempenho da sua controlada Fras-Le que subiu 21%. No caso da Tupy, a piora da percepção em relação à sua governança corporativa, fruto de indicações por parte do acionista controlador estatal, foi vista como uma interferência indevida na empresa.
Entramos 2026 céticos em relação a uma evolução positiva na área econômica. O BC tem se mostrado mais conservador na política monetária, apesar de sinais de convergência das expectativas de inflação futura. Entendemos a orientação do BCB, ainda que saibamos que, na ausência de políticas fiscais em coordenação com esse aperto monetário, esse esforço pode se mostrar em vão, resultando em maior endividamento, maior percepção de risco e, novamente, atraindo o fantasma da “dominância fiscal”. Não acreditamos em repactuação ou renegociação de dívida soberana. No esgotamento do veio tributário para a busca de receitas adicionais, o reequilíbrio das contas públicas tenderá a se dar pela expansão monetária. Ao longo desse tortuoso caminho, teremos um pleito onde a sociedade terá uma nova oportunidade de indicar seus representantes.
Por um lado, confirmar o caminho populista, gastando como se não houvesse amanhã enquanto se espera pela solução milagrosa, por outro, a busca pelo reequilíbrio fiscal, implicando desaceleração inicial, algum desconforto entre os milhões de beneficiários e que hoje parecem estar fora do mercado de trabalho, mas atraindo investimentos em função de maior previsibilidade para os próximos anos.
Tal como Odisseu, amarremo-nos ao mastro para evitar as tentações ao longo de mais essa jornada. Gostaríamos que os representantes dos Poderes da República fizessem o mesmo para que fiquem amarrados ao que rege a Constituição Federal, evitando a tentação de um poder exacerbado e ilimitado. Esse menor risco institucional já traria reflexos imediatos para a redução na percepção de risco Brasil.
Alocação setorial - GTI Dimona Brasil FIA

Um ótimo 2026 para todos!!!
Atenciosamente,
André Gordon.


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