Carta do Gestor - Março de 2026
- André Gordon
- há 1 dia
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Prezados cotistas,
Março foi um mês extremamente volátil devido à guerra entre EUA, Israel e Irã, afetando praticamente todas as Nações, com destaque para aquelas mais dependentes de insumos básicos oriundos dos países do Golfo Pérsico. Foi o caso do Japão e das principais economias europeias. O Brasil, menos dependente de insumos da região, terminou o mês bem melhor do que esteve, próximo da estabilidade. O IBOVESPA caiu 0,71%, acumulando ainda uma alta de 16,35% no ano. As principais bolsas norte-americanas encerraram fevereiro em forte queda, com o S&P500 caindo 5,09% e o Nasdaq 4,89%. Para efeito de comparação, o DAX alemão caiu 10,3% enquanto o principal índice japonês, o Nikkei encerrou o mês com queda de 13,23% ou mais de 15% em dólar. A moeda norte-americana se valorizou 2,33% em relação a cesta de moedas, mas apenas 1,05% em relação ao Real.
Nossos fundos GTI DIMONA, GTI HAIFA e GTI NIMROD terminaram o mês com quedas de 1,72%, 2,05% e 2,46%, respectivamente. A rentabilidade dos títulos de 10 anos do tesouro americano subiu 37 pontos base, para 4,32%.
O fluxo de investimento estrangeiro para a bolsa brasileira continuou em ritmo acelerado e atingiu mais de R$ 50 bi acumulados somente no ano de 2026. Isso tem sustentado o desempenho relativo mais favorável não só do Brasil, mas também de outros mercado emergentes. Esse fluxo tem se concentrado em um grupo mais específico de ações de setores considerados mais seguros como o financeiro e o de o de energia elétrica e mais recentemente em commodities principalmente em Vale e Petrobras.
Nesse conflito que completou seu primeiro mês, a diferença tecnológica entre EUA e Israel de um lado e Irã do outro nos leva a conclusão de que a guerra deveria deixar poucas dúvidas sobre seus resultados. Tamanha a destruição infringida ao Irã deveria ser suficiente para que o país buscasse chegar a um acordo com os EUA, acordo esse que promoveria uma grande calmaria para toda a complexa região.
Os grandes trunfos do Irã têm sido a sua máquina de propaganda, que atinge grande público nas
democracias ocidentais, influenciando a opinião pública e o desgaste econômico, aprofundado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde 20% da oferta mundial de petróleo é escoada, além de grande parte da produção de fertilizantes. O fechamento de Ormuz se deu através de ameaças contra quaisquer embarcações que ousarem atravessar o canal. O fluxo diário saiu de 120 embarcações por dia para praticamente zero em alguns dias. O barril de petróleo subiu 51,3% no mês, acumulando alta de 77% no ano. Os países asiáticos e europeus são os que mais sofrem com esse choque de oferta, mas ainda assim, a maioria tem se abstido de maior envolvimento no conflito, impedindo até o uso de espaço aéreo por aeronaves norte-americanas.
A incerteza quanto ao que poderia levar o conflito ao seu fim deteriorou bastante as perspectivas de inflação para a maioria dos países. No caso dos EUA, não apenas deixou-se de acreditar em novos cortes na taxa básica de juros, como passou-se a especular sobre eventual nova elevação. Na reunião do dia 18, os membros do FED decidiram pela manutenção da taxa básica em 3,75%, em linha com as expectativas.
Já no Brasil os efeitos do conflito são difusos. De um lado, o país poderia ganhar protagonismo como um fornecedor neutro, confiável de matérias primas, com autossuficiência em Petróleo. Por outro lado, diante também da deterioração de expectativas para inflação e desequilíbrio fiscal, o COPOM reduziu a taxa Selic em 0,25%, abaixo dos 0,50% esperados antes do início da guerra. Toda a curva de juros se deslocou para cima, em torno de 0,5% alimentando um ambiente creditício já com sinais mais avançados de deterioração. Os próximos oito meses tendem a ser bastante voláteis também naquilo que se referir a ambiente político. Nossa sorte, novamente, é que o fluxo global de capitais tem preterido essa temática eleitoral e privilegiado o Brasil.
O grande destaque de nosso portfólio foram as ações da Unifique, com alta de 32,8% no mês. A empresa reportou bons resultados e acima das expectativas. A oferta de compra feita pela Claro para as ações da Desktop, provedora de acesso IP com foco no Estado de São Paulo, entretanto, pode ter dado início ao processo de consolidação do setor. A oferta avaliou a Desktop um pouco acima de 6 vezes o Ebitda, quase o dobro do valor em que unifique era negociada e acreditamos que uma parte de investidores pode ter migrado das ações da Desktop para outras empresa do mesmo setor como as da Unifique
Outros destaques positivos de nosso portfólio foram as ações relacionadas ao agribusiness. Com ligeira alta nos preços da soja, expectativas de alta para o algodão com o nylon para cima e com o açúcar subindo 11,7%, as ações da São Martinho subiram 18% enquanto as da SLC subiram 13,5%.
Já no campo negativo, tivemos as ações da Suzano, com queda de 10,5%, refletindo a queda de 2,5% no preço da celulose, e das empresas domésticas mais alavancadas que sofreram com o efeito da elevação na curva de juros. MRV caiu 23,1% enquanto vamos caiu 15,5% e SIMPAR 9,1%. SIMPAR e Vamos anunciaram uma grande operação de capitalização na holding e, a depender das condições de mercado, também das subsidiárias Vamos e Movida. O BNDES entrará no capital da companhia com participação minoritária, antecipando em 2 ou 3 anos a desalavancagem na holding SIMPAR e contribuindo nas estratégias de modernização de frota no país, principalmente através das linhas de crédito setoriais dedicadas.
Esperamos alguma redução de volatilidade ao longo das próximas semanas, tomando por base um certo pragmatismo que tem orientado as decisões dos EUA sob o governo de Donald Trump. A longa duração do conflito, no atual estágio, certamente trará mais desgastes ao governo do que frutos. Num ambiente mais calmo, o desempenho dos ativos domésticos deve seguir em consonância com o forte fluxo de capitais que tem buscado o Brasil e a posição técnica bastante favorável. As pesquisas eleitorais darão o tempero.
Alocação setorial - GTI Dimona Brasil FIA

Atenciosamente,
André Gordon.


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