Carta do Gestor - Maio de 2016

Prezado investidor,


O mês de Maio foi marcado por uma forte correção nos mercados locais. O Real perdeu quase 5% de seu valor enquanto o IBOVESPA caiu 10,1%. Apesar de estarmos com elevada exposição em bolsa, nosso fundo perdeu 5,6% em maio.


Houve aumento da percepção de que muito em breve será iniciado o ciclo de aperto monetário nos EUA. Por conta disso, o dólar se fortaleceu contra a cesta internacional de moedas. Também persiste a preocupação quanto ao “slow down” da economia chinesa. As medidas de estímulo são pouco convincentes quanto à garantia da aceleração de crescimento, parecendo muito mais paliativos para promover o pouso suave.


A nova e talentosa equipe econômica iniciou suas atividades ainda em meio às incertezas da política. Dentre uma das primeiras vitórias deste novo governo esteve a alteração do orçamento para 2016, elevando a previsão do déficit primário em R$ 100 bi para R$ 170,5 bi ou quase 3% do PIB. Foi uma vitória fácil para o governo Temer que, ao que tudo indica, parece contar com aproximadamente 400 deputados em sua base, número confortavelmente superior aos 308 deputados necessários para a aprovação de Emendas Constitucionais.


Dentre os principais indicadores financeiros divulgados ao longo do mês, destacamos aqueles que indicam que houve uma importante melhora nos índices de confiança dos empresários, assim como ligeira recuperação na atividade industrial. Claramente o avanço do processo de impeachment interrompeu ou ao menos reduziu o círculo vicioso que imperava desde meados de 2015.


Já as estimativas de inflação sofreram uma modesta piora pela influência de preços agrícolas e depreciação cambial. Ainda acreditamos que boa parte deste repique se deva muito mais a ajustes de preços relativos e que deve se dissipar ao longo do ano. O processo de queda na taxa Selic tende a ser

iniciado no terceiro trimestre deste ano e de forma lenta. O novo presidente do BC foi sabatinado e em sua exposição aos senadores deixou muito claro que resgatará o importante tripé responsável pelo sucesso econômico do país entre no final dos anos 90 e início deste milênio: o ajuste fiscal, o respeito a meta de inflação e o câmbio flutuante.


Dentre os graves vícios que um país doente como o Brasil tem existe a cultura dos juros altos. Os juros altos são um mal necessário para conter a inflação, mas sua aplicação sem que haja um mínimo de respeito do governo ao orçamento seria análogo ao paciente com cirrose hepática que, apesar de tomar seu medicamento corretamente, insiste em consumir altas doses de álcool. Os juros altos inviabilizam milhares de projetos, cujos retornos associados aos riscos inerentes não teriam como competir em condições de racionalidade financeira. Os juros altos, quando incidentes sobre dívidas não amortizadas, provocam o efeito bola de neve, levando famílias, empresas e Estados à bancarrota.


Mas há uma parcela importante da sociedade que vive desta renda elevada e com risco percebido baixo. Risco percebido baixo, pois a dívida líquida do país ainda é relativamente baixa. Quando subtraímos o caixa e as reservas internacionais da dívida bruta, estamos muito distantes da insolvência. É claro que a persistência do atual cenário faria com que esse quadro rapidamente se modificasse.


Seguimos bastante expostos aos setores e às empresas que acreditamos irão se beneficiar muito do processo de queda nas taxas de juros, principalmente o setor de properties e de varejo, tanto de bens semiduráveis quanto vestuário. A retomada da atividade também tende a impactar positivamente nosso portfólio, além dos setores acima, dos setores financeiros e de infraestrutura.


A operação Lava-Jato segue de forma autônoma e apesar de ser extremamente positiva para que o Brasil se afaste desta corrupção epidêmica que nos assola há mais de uma década, contribui para gerar alguma incerteza quanto aos próximos passos neste processo de impeachment.


A votação final do impeachment deverá ocorrer em meados de agosto. Senadores como o presidente da casa, Renan Calheiros, e Romero Jucá tiveram prisão pedida pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. Outros senadores, aparentemente, fazem uma vergonhosa barganha, condicionando seu voto à indicação para cargos de confiança na administração pública. Atribuímos baixa probabilidade para a volta da presidente afastada ao poder. Mesmo neste improvável cenário, se ela voltar, ela não terá as mínimas condições de governabilidade. Além disso, outros crimes que a envolvem estão sendo trazidos à tona pelas delações premiadas de Nestor Cerveró e Marcelo Odebrecht.


Permanecendo Michel Temer no cargo, acreditamos também serem bastante remotas as chances de que o TSE casse a chapa encabeçada pela outrora presidente, conforme já houve sinalização do próprio presidente do TSE, usando como referência um caso análogo, em Roraima. Com a morte do governador Ottomar Pinto, o TSE rejeitou a cassação do então governador em exercício Anchieta Junior.


Caso o processo no TSE respeite os prazos legais ele tende a se prolongar por mais alguns meses. Caso seja ultrapassado o ano de 2016, a eventual cassação da chapa levaria o país à eleição indireta para presidente da República pelo Congresso Nacional. Neste cenário, também vemos poucos riscos de que o presidente eleito pelos seus pares altere de forma significativa o desenho que Michel Temer imprime ao país até o momento.


Por fim, vale mencionar que poucas vezes a mídia se mostrou tão combativa a um presidente com tão poucos dias de governo. Os ataques ao governo foram desde temas ridículos e vergonhosos, factoides inúteis e irrelevantes e que não mereciam mais do que uma citação em canto de página, como por exemplo a insinuação de que o governo seria machista por não ter uma mulher em seu ministério ou, ainda pior, racista, por não ter nenhum ministro negro e até mesmo ao pedido de cabeças de ministros que seriam indiciados. Postura esta muito diferente daquela vista durante boa parte do governo do PT.


Enquanto há muitos riscos e incerteza, temos bastante prêmio sobre a mesa. Em poucos meses, se o nosso cenário base estiver correto, boa parte destes riscos e incertezas terão se dissipado. Encontraremos os preços em outro patamar. Aos vencedores, como sempre, as batatas!!!


Atenciosamente,

André Gordon

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