Carta do Gestor - Junho de 2020


Prezados cotistas,

O mês de junho foi, novamente, marcado por certo otimismo nos mercados quanto a retomada da atividade, mais próximo do que seria a “forma V”. As principais bolsas do planeta tiveram desempenho positivo, com destaque ao índice Nasdaq, de empresas de tecnologia, que subiu 6,2%. O IBOVESPA teve desempenho de 8,7% e nossa estratégia encerrou o mês com alta de 12,5%.


Nos EUA, uma forte redução nos novos pedidos de seguro desemprego e números melhores nos indicadores antecedentes assim como no varejo ajudaram a sustentar os mercados. No Brasil também tivemos surpresas positivas vindas do mercado de trabalho. As medidas econômicas ajudaram a preservar alguns milhões de postos de trabalho e a renda mínima oferecida para quase 60 milhões de brasileiros tem ajudado a preservar a demanda por bens e serviços em diversos setores da economia.


O BCB reduziu, novamente a taxa Selic, em 0,75% para 2,25% e ainda deixou espaço para uma última redução de 0,25% na reunião de agosto. Sob taxa de juros neste patamar, houve demanda por dólares de forma que, apesar dos resultados melhorando nas contas externas, o Real perdeu no mês mais 2,5% de seu valor. Quando olhamos os preços dos ativos brasileiros em moeda estrangeira, eles nos parecem ainda mais baratos sob um horizonte de longo prazo.


A reabertura da atividade nos principais países europeus e mesmo nos EUA foram, podemos assim dizer, foi um tanto animadora. Havia certo receio de que as pessoas não retomariam seus hábitos anteriores, mas ao que tudo indica, o pânico promovido de forma sistemática pelos governos e com o apoio da imprensa deu espaço à racionalidade e aos fatos. Na Europa os novos casos de Covid19 seguem caindo, mas não foi o que se observou nos EUA após a reabertura. As regiões que haviam sido menos atingidas, agora passaram a apresentar maior número de casos. Fato parecido pode ser observado em Israel. Por outro lado, apesar do crescimento no número de casos diários nos EUA, o número de óbitos diários segue diminuindo. Ainda é prematuro para termos a resposta completa, mas há evidências de que o protocolo de atendimento precoce tem sido importante fator nessa evolução. Fator este que também observamos no Brasil que, apesar da resiliência dos novos casos, não tem tido reflexo no sistema de saúde, cuja utilização de capacidade segue cadente. E se o colapso do sistema de saúde deixa de ser o problema, a reabertura fica menos comprometida, apesar de casos exóticos sendo observados em algumas cidades, onde os prefeitos tomam suas decisões de forma pouco técnica. Um risco que ao menos parece ter ficado para o passado é a adoção, novamente, de um lockdown horizontal tal como o que houve. Podemos ver medidas pontuais, mas não acreditamos que o mesmo erro seria repetido pelas autoridades.


O governo brasileiro prorrogou, por mais dois meses, o auxílio de R$600/mês aos mais pobres. Esse volume de R$ 35 bi por mês tem ajudado bastante a manutenção da atividade e a preservação da ordem social no país.


O risco político, que vinha aumentando continuamente desde a demissão do Ministro da Justiça, também parece ter sido deixado de lado, ao menos momentaneamente. O Presidente tem tido uma postura de menos confronto com as demais autoridades do país e tem procurado indicar nomes considerados mais técnicos e menos ideológicos para o MEC. O segundo semestre do ano encontrará um Congresso Nacional voltado para as eleições municipais, mas acreditamos que haja condições para alguma evolução na agenda de reformas, seja a tributária ou mesmo o avanço na venda de ativos. Lembramos que a aprovação do PL 4.162/2019, conhecido por ser o marco legal do saneamento foi, finalmente, aprovado pelo Senado. Metade da população brasileira não tem acesso ao sistema de esgoto, o que impacta negativamente diversos indicadores sociais e pressiona os gastos na Saúde. Esse marco legal deve contribuir com novos investimentos no setor além de viabilizar a privatização das empresas estatais.


Dentre os destaques no mês, tivemos a alta de 32,6% nas ações da Guararapes e de 25,6% nas ações da Cogna. No caso da varejista, houve o falecimento do fundador e Chairman da empresa. O Sr. Nevaldo Rocha foi, sem dúvidas, um empresário visionário e o grande responsável pelo sucesso da empresa. Transformou a Guararapes na segunda maior varejista de roupas do país, tendo além das lojas da Riachuelo, o parque fabril, imóveis, o banco Midway e o Shopping Center Midway Mall. O mercado entende que os sucessores do Sr. Nevaldo possam iniciar uma nova fase na gestão dos ativos da empresa, deixando-a mais “asset light” e concentrando-se no varejo. Apesar das empresas serem de tamanhos e potenciais parecidos, a Guararapes é negociada hoje a 30% do valor das Lojas Renner, vista pelo mercado como uma empresa de excelência no segmento.


Já no caso da Cogna, há grande expectativa de que ao longo desse terceiro trimestre a holding faça o IPO da Vasta, sua subsidiária de B2B no segmento de educação básica. O mercado olha atentamente para as ações da ARCO, empresa concorrente e que hoje é negociada nos EUA a pouco mais de R$ 14 bilhões, valor próximo ao de toda a holding da Cogna, que além da subsidiária Vasta, com aproximadamente o mesmo número de alunos em escolas parceiras que a Arco (~1,3 milhão) e receitas superiores, é dona também da Platos, da Saber e da Kroton, com mais de 150 campi, 920 mil alunos no ensino superior, entre presenciais e à distância. Essa oferta pode ser transformacional para a empresa, que capitalizada poderá acelerar seu processo de expansão e de investimentos.


Seguimos construtivos para esse segundo semestre do ano, com a retomada paulatina da atividade e superação desta catástrofe sanitária. A pacificação no campo político permitirá que haja a volta da agenda de reformas e, após o fim do Estado de Calamidade Pública, a retomada dos compromissos com o equilíbrio fiscal. Sob taxas de juros num patamar inédito, devemos seguir observando a realocação de recursos para investimentos de maior risco, em particular do mercado acionário, num processo contínuo e que pode ser acelerado conforme aumente a visibilidade quanto a retomada da atividade. Estamos posicionados para colher esses frutos.

Atenciosamente,

André Gordon

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