Carta do Gestor - Julho de 2025
- André Gordon
- 5 de ago.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 23 horas
Prezados cotistas,
Após alguns meses de fluxo estrangeiro para a Bolsa Brasileira, Julho foi um mês de ajuste. O investidor estrangeiro sacou mais de R$ 6 bi somente neste mês de Julho, apesar do saldo acumulado no ano continuar em R$ 20 bi. Mesmo em meio a um cenário mais calmo no exterior, o índice IBOVESPA, que chegou a atingir seu valor máximo histórico no início do mês, cedeu e terminou com queda de 4,2%.
Nossos fundos GTI DIMONA, GTI HAIFA e GTI NIMROD acompanharam a queda com retornos negativos de 4,3%, 4,3% e 3,7%. O Dólar ganhou 3,2% em relação a cesta de moedas e 3,1% em relação ao Real. Os treasuries abriram taxa, em 14 pontos base para os vencimentos mais longos, com o título de 10 anos negociando a 4,37% e o de 2 anos a 3,96%; o principal índice de commodities, o CRB, fechou o mês com queda de 1,1%. Enquanto o alumínio caiu 1,2%, o minério de ferro e o petróleo subiram 6,4%.
Desde o início do Governo Donald Trump, o Brasil vinha sendo poupado de ações mais contundentes no que tange ao capítulo da “guerra tarifária”. Nos últimos anos, inclusive, os EUA têm obtido superávits comerciais em relação ao Brasil, país que absorve em torno de 1,5% das suas exportações. O Brasil, por outro lado, tem os EUA como seu segundo maior destino, após a China. Ao longo de Julho, entretanto, chegou a nossa vez. Os EUA aplicaram tarifas retaliatórias de 50% sobre as exportações Brasileiras. Ameaçou somar a está alíquota, qualquer nova alíquota que porventura o Brasil pudesse utilizar como retaliação. Segundo o comunicado enviado pelos EUA, as retaliações ao Brasil não são exclusivamente motivadas por questões comerciais.
Há uma insatisfação com o rumo político que o Governo Brasileiro tem adotado, seja no cenário internacional, onde lidera, entre os membros dos BRICS, as iniciativas para substituir o Dólar Norte-Americano como moeda de troca, seja no cenário doméstico, onde condena a atuação, principalmente dos integrantes do STF, na perseguição política ao Ex-Presidente Jair Bolsonaro e o abuso de poder ao censurar e multar não apenas empresas norte-americanos, mas também seus cidadãos em seu território. Na véspera da aplicação das novas tarifas, Donald Trump isentou quase 700 itens, entre os quais os aviões da Embraer, petróleo, laranjas, papel e celulose e fertilizantes, totalizando pouco mais de 40% das nossas exportações, o que acabou sendo visto como um alívio momentâneo.
Dentre os destaques positivos no mês estão as ações de empresas de commodities que, mesmo em meio às incertezas tarifárias, ainda sustentaram alta. As ações da Brava tiveram alta de 13,5%, finalmente tendo bons números operacionais coincidindo com elevação de preços, enquanto Gerdau, Suzano e Vale tiveram altas mais modestas, entre 1% e 5,5%.
Dentre os destaques negativos, tivemos, novamente, as ações de empresas com endividamento mais elevado. As ações da Simpar caíram 15,6% enquanto as ações da Randon caíram 20,2%. No caso das ações da produtora de autopeças e reboques de caminhões, a queda ainda foi acentuada pelo anúncio de uma oferta primária de ações onde o acionista controlador deve subscrever, ao menos, as ações as quais teria direito, além de um cenário mais fraco para o mercado de reboques e semi reboques. Nós aproveitamos esta queda de preços para comprar, em mercado, as ações as quais teríamos direito de preferência, já que caíram abaixo do valor de subscrição.
Estamos navegando por “águas antes nunca navegadas”. Há algum alento ao saber que as reprováveis interações do Brasil com o resto do mundo, hoje, atendem muito mais à ideologia do atual Governo do que às necessidades do Estado Brasileiro, que historicamente demonstrou muita competência na conduta de suas relações diplomáticas. Dito de outra forma, tanto as atuais sanções, quanto outras que porventura a estas se somem, estariam com os dias contados à luz de um novo governo que traga o Brasil de volta ao seu eixo. Ainda estamos distantes das próximas eleições e qualquer palpite hoje, poderá se mostrar absolutamente distante das possibilidades que possam se apresentar ao longo do próximo ano. Como disse Magalhães Pinto, “política é como nuvem”. Você olha e estão de um jeito. Quando torna a olhar, estão de outro.
O que não podemos perder de referência é que as empresas de nosso portfólio estão sendo negociadas hoje abaixo de 7 vezes o lucro estimado para 2026 ou em torno de 4 vezes sua geração de caixa operacional. Já vimos esses parâmetros em outras ocasiões. Após a Fazenda promover os devidos ajustes de rota, o desempenho dos ativos foi bastante compensador. Estamos chegando próximos ao esgotamento deste modelo de expansão de gastos cobertos por expansão de receitas (elevação de impostos). Mais cedo do que mais tarde, será imperativo o ajuste fiscal com corte ou, ao menos, o congelamento das despesas. A esse movimento, se seguirá o ainda distante início no ciclo de corte de juros, trazendo consigo um ciclo virtuoso. A hora é de buscar combinar empresas com potencial, mas que tenham resiliência durante essa curta, mas inóspita travessia.

Atenciosamente,
André Gordon.
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