Carta do Gestor - Julho de 2015

Prezado investidor,


A breve lua-de-mel dos investidores com o ministro da Fazenda terminou. O casamento ainda não. Ainda há um entendimento majoritário de que Joaquim Levy é um homem bem preparado e bem intencionado, com potencial para devolver a credibilidade que o país perdeu ao longo dos últimos cinco anos. Mas aquele amor idealizado se foi.


O ministro mostrou que está longe de ser o senhor de sua cadeira. Aparentemente, a presidente Dilma andou mal-humorada com a deterioração continuada da atividade econômica e de sua popularidade (que ironicamente esta menor que a inflação esperada para este ano), apesar de ter cedido à agenda de Levy. O ministro do Planejamento Nelson Barbosa venceu o braço de ferro e foi anunciada uma redução substantiva da meta de superávit primário para 2015, de 1,13% para apenas 0,15%. Como se isso não bastasse, a desaceleração da economia fez com que apesar dos esforços, o pífio superávit primário conquistado às duras penas até maio se transformou no primeiro déficit semestral desde 1997.


A agência de avaliação de risco S&P colocou o rating do Brasil em perspectiva negativa, o que significa que caso não haja uma reversão na atual tendência, o país deixará de ser considerado Grau de Investimento a qualquer momento. Apesar dos atuais preços dos ativos brasileiros já indicarem uma classificação mais frágil do país, a perda efetiva deste selo de qualidade implicará na fuga de capitais de investidores institucionais.


O Real perdeu 10% de seu valor frente ao Dólar americano no mês e já é a pior moeda do ano, dentre as principais do planeta, tendo perdido um quarto de seu valor. Mesmo com a forte queda das commodities, o câmbio depreciado deverá contribuir para o saldo positivo na balança comercial. A nova elevação na taxa SELIC, para 14,25%, provavelmente a última deste ciclo, contribuirá para que capitais especulativos voltem para o país caso os investidores sejam convencidos de que haverá maior seriedade no trato da questão fiscal. Infelizmente, o fato de que quase 90% das receitas do Governo são comprometidas com despesas diversas torna o grau de liberdade para ajustes bastante restrito. Na ausência de ganhos de competitividade relevantes no país ou mesmo de um crescimento econômico, por menor que seja, temas mais ásperos e relacionados às reformas estruturais deverão ser abordados pelo Governo com certa urgência.


Como se toda a desgraça fosse pouca para o atual governo, a chefe do executivo encontra-se ameaçada por diferentes razões, cada uma delas evoluindo de forma independente, mas que, a depender de um complexo arranjo político, devem convergir para um denominador comum: um pedido de Impeachment. Problemas com o financiamento de campanha, com dinheiro não declarado e oriundo de desvio de empresas estatais, podem levar o TSE à cassação do mandato de Dilma. A não aprovação das contas públicas pelo TCU pode levar ao Congresso Nacional à rejeição das mesmas, o que implicaria a presidente em crime de responsabilidade. Por fim, a operação Lava-jato segue aprofundando suas investigações e já avança em outras empresas estatais como a Eletrobrás. Como a presidente foi ministra das Minas e Energia e presidente do conselho de administração da Petrobrás, poderá ser responsabilizada a qualquer momento pela participação no maior escândalo de corrupção que o mundo ocidental já assistiu. Esta semana o ex-ministro da Casa Civil e “ex-Todo Poderoso” José Dirceu foi preso novamente e a cada novo avanço destas investigações, as cabeças de Lula e de Dilma ficam mais expostas. Também no mês de julho o presidente da Câmara dos Deputados declarou que tirou seu apoio à base governista e de largada, acatou a abertura de novas CPIs de temas delicados ao Governo como o BNDES, onde se acredita que estarão escancarados, se não os maiores crimes dos últimos governos, crimes tão estarrecedores quanto aqueles que envolveram a Petrobrás.

Neste cenário pouco animador e desafiador, o mercado de ações brasileiro teve mais uma forte correção e nosso fundo acompanhou este desempenho negativo.


Os destaque negativos do mês ficaram por conta das ações da Rumo, que perdeu quase 30% de seu valor sem nenhuma notícia pública e que justificasse tal desempenho, seguido pelas ações da siderúrgica Gerdau. No caso da Gerdau, que perdeu mais 10% de seu valor e já acumula uma queda de mais de 50% nos últimos 12 meses, novamente a desconfiança quanto à idoneidade de seus administradores e controladores foi o principal motivo da queda. A empresa tem 40% de sua operação nos EUA e outros países e toda sua receita dolarizada, o que deveria lhe conferir um caráter mais defensivo neste cenário adverso para Brasil. Mas a forte desaceleração econômica no Brasil, que afetou a demanda nacional e a desaceleração na China, que afetou os preços do aço, foram acompanhadas pelo triste eco da má governança nesse caso. A empresa anunciou, apesar deste cenário adverso, a compra de participações minoritárias em poder do Itaú e da Mittal, correspondentes a aproximadamente 4% do capital da empresa, por R$ 2 bilhões, valor que permitiria comprar no mercado uma posição de ações da própria Gerdau cinco vezes maior, entendeu? Não? Nós e outros participantes do mercado também não.


O destaque positivo ficou por conta das ações da seguradora Sulamerica, que segue conseguindo reduzir seus indicadores de sinistralidade e da atacadista e varejista de medicamentos Profarma, que se encontra bastante descontada em relação a outros participantes do setor.


Os resultados referentes ao segundo trimestre divulgados até o momento se mostram muito superiores ao que os preços de mercado indicam para a maioria das empresas. Gostamos de destacar com frequência que este conjunto de empresas, de maneira geral, é uma amostra de empresas com fortes vantagens competitivas em relação a diversas empresas que não têm o mesmo acesso ao mercado de capitais ou mesmo escala. Aqueles que sobreviverem sairão fortalecidos. A travessia é longa, mas pode haver uma ilha de prosperidade no caminho dos bons navegadores.


Atenciosamente,

André Gordon

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