Carta do Gestor - Dezembro de 2018

Atualizado: 3 de Jan de 2019

Prezados cotistas,


Finalmente encerramos este longo e tumultuado ano. Apesar da euforia já no início de 2018, em Fevereiro voltaram os questionamentos sobre a desaceleração da economia norte-americana e o debate sobre a magnitude do ciclo de alta de juros pelo FED, interrompendo um período de sucessivos recordes de alta nos mercados (que ocorria desde a eleição de Donald Trump).


No Brasil, entre altos e baixos, as coisas pareciam começar a entrar nos eixos, com a inflação bem comportada e a retomada lenta e gradual na atividade econômica. Mas em Maio veio a greve dos caminhoneiros e, com ela, abriu-se a caixa de Pandora. Num verdadeiro show de horrores, pudemos experimentar, por uns dias, como seria viver em Cuba ou na Venezuela. O fortalecimento do dólar e a alta intensa do petróleo, levaram os preços dos combustíveis no Brasil a uma escalada de quase 80% em 12 meses, comprimindo ainda mais a margem líquida nos fretes. Os caminhoneiros resolveram parar de rodar e, com isso, paralisaram o país. Houve desabastecimento total de combustíveis e, consequentemente, os grandes centros urbanos e as estradas se transformaram em desertos. Para determinados setores, como o de proteína animal, os resultados foram trágicos, com perdas, cuja recuperação levará mais de um ano. No varejo houve forte retração. A confiança dos consumidores e empresários caiu.


Estimamos que esse movimento tenha sacrificado em torno de 1% do crescimento do PIB. Como consequência direta da greve, a Petrobras perdeu seu competente CEO, Pedro Parente, e 45% de seu valor de mercado. Houve queda na arrecadação de impostos e o Governo, fragilizado e sem nenhum apoio político, cedeu aos caminhoneiros nas suas piores demandas. Foi estabelecido um preço mínimo para o frete e a alteração na política de preços da Petrobrás, com a volta de subsídios para o diesel. Após essa demonstração de fraqueza, foi deixada para o próximo governo a tão esperada e já tramitada Reforma da Previdência. Adaptando para o Brasil uma frase do ex-chanceler israelense Abba Eban, o Brasil nunca perde a oportunidade de perder oportunidades.


A greve dos caminhoneiros enterrou de vez as intenções de Michel Temer, tanto de tentar sua reeleição como a de se credenciar a ser um ator político relevante para a disputa eleitoral que se avizinhava. E essa foi uma disputa eleitoral memorável. Após a condenação em segunda instância do ex-presidente Lula, o PT parecia alijado do processo eleitoral. Mas o ex-presidente transformou o seu julgamento e a sua prisão em factoides políticos. Num espetáculo dantesco, o seu “poste” escolhido, o ex-prefeito e detentor de uma das piores avaliações da história paulistana, Fernando Haddad, por fim converteu-se num forte e competitivo candidato ao planalto. Os candidatos governistas se dividiram e, nas figuras de Geraldo Alckmin e de Henrique Meirelles, protagonizaram uma das mais vexatórias derrotas eleitorais de que temos notícias. O candidato de fora do estamento, Jair Bolsonaro, foi vítima de um atentado que quase lhe custou a vida e, com ela, nossa fragilizada democracia. Vivemos dias de forte tensão, primeiro com a cirurgia de alto risco que lhe devolveu a vida e, alguns dias depois, com uma segunda cirurgia que nos remeteu ao drama vivido por Tancredo Neves. Felizmente Jair Bolsonaro se recuperou bem e, contra praticamente todos os institutos de pesquisas e sob ataque virulento de quase toda a grande mídia, numa campanha com pouquíssimos recursos, tempo de TV, de rádio ou de apoio político, investiu numa campanha através das redes sociais e, com isso, cresceu continuamente até ser eleito, em segundo turno, presidente do Brasil.


Ainda durante a campanha, Bolsonaro fez um importante movimento ao indicar o economista Paulo Guedes para ser seu “superministro” da economia. Com esse movimento, ele angariou confiança junto aos mercados e empresários. Sob as bandeiras de combate à criminalidade e à corrupção, ele também conquistou o apoio popular. Estávamos entre o risco do Brasil se transformar numa Venezuela, na eventual vitória de Haddad ou de termos alguma chance de recuperação, com Bolsonaro. Com a vitória do capitão da reserva, os mercados se acalmaram. Temer arrastou seu governo até o último dia, mas as indicações dos principais nomes que farão parte do futuro governo contribuíram para o bom desempenho dos ativos brasileiros neste período.


Ao apagar das luzes deste 2018, os holofotes se voltaram para a “guerra comercial” entre EUA e China e, novamente, para o debate sobre a intensidade do ciclo de aperto monetário nos EUA. Dessa vez, houve rumores até de uma eventual demissão do presidente do FED, Jerome Powell, colocando em xeque a tão propalada independência do BC. Como se não bastasse, a disputa em torno do orçamento e que teve como pivô central a autorização de verbas para a construção do muro entre EUA e México, provocou a paralisação parcial do governo central e um grande aumento de volatilidade. Os principais índices de bolsa nos EUA tiveram fortes quedas, de quase 20%.


Mas entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Mantemos nosso entendimento de que o aperto monetário era necessário e de que o uso deste ferramental é parte inexorável dos ciclos macroeconômicos. Estamos aqui discutindo, na margem, se o FED poderia ou não ter adiado esse aumento de dezembro, de 0,25%, e que levou a taxa básica para 2,50% aa. As expectativas de mercado foram reduzidas e, hoje, poucos acreditam que a taxa básica encerrará o ano de 2019 acima de 2,75%. Caso os sinais de desaceleração comecem a ganhar espaço, terá o FED maior potência à sua disposição para prover liquidez à economia. O tema da guerra comercial nos parece também superestimado. Sabemos que a China, por anos, desrespeitou diversas práticas de mercado. Sabemos também, que Trump se elegeu, dentre outras metas, por anunciar que não mais as toleraria. E como ambos precisam e se beneficiam do comércio bilateral, é mais provável que cheguem a um acordo com termos intermediários. As bolsas caíram porque estavam relativamente caras. E estavam caras porque a economia vai muito bem, obrigado.


Acreditamos que o comportamento primário das empresas brasileiras será ditado por nossa agenda doméstica. Num segundo plano estarão questões ligadas à economia internacional. Iniciamos 2019 com o Real relativamente depreciado e com USD 380 bi de reservas internacionais, nível extremamente confortável à luz do forte saldo na balança comercial e de boas perspectivas para investimentos diretos, financiando com folga nosso déficit de transações correntes.


No campo doméstico, será importante avaliar os seis primeiros meses do novo governo, com o foco na importante reforma da previdência. Há boas chances de se colocar em votação o projeto já tramitado durante o governo Temer. Acreditamos que essa posição traria ganhos em termos de agilidade e evitaria desgastes políticos.


Não podemos deixar de destacar que, apesar da baixa popularidade, o governo Temer entregou um Brasil muito melhor do que aquele que recebeu após o impeachment. Aprovou o teto de gastos e avançou em muito no saneamento das empresas estatais como a Petrobras, que voltou a ser lucrativa e da Eletrobrás, que se desfez das 6 distribuidoras deficitárias e está preparada para o esperado aumento de capital que a transformará numa corporação com melhores práticas de governança. Temer assumiu o governo com a inflação em 11% ao ano e entregará o país com o IPCA abaixo de 4% e da meta estipulada para 2018, de 4,5%, apesar da menor taxa Selic da série histórica, de 6,5%. As expectativas para o próximo ano estão na faixa de 3,9%, abaixo da meta de 4,25%. O Brasil perdia 200 mil postos de trabalho quando Temer assumiu. Atualmente há abertura de mais que 50 mil postos por mês. Vivemos uma depressão econômica, com queda do PIB de 3,5% ao ano. Encerraremos 2018 com crescimento superior a 1%. O maior problema remanescente e que o governo Bolsonaro enfrentará será o déficit fiscal elevado e crescente, apesar dos esforços do governo no sentido de contenção de despesas. E por isso o foco de Paulo Guedes será a Reforma da Previdência.


Encerramos o mês de dezembro com queda de 0,76%, ligeiramente melhor que o IBOVESPA que caiu 1,86%. Em 2018 superamos o IBOVESPA pelo terceiro ano consecutivo. Fechamos com valorização de 25,17% contra 15,03% do principal índice.


Em termos setoriais, continuamos com as maiores exposições nos setores domésticos da economia, com fluxos de caixa mais estáveis e que deverão se beneficiar da queda nas taxas de juros de mais longo prazo, conforme a reforma da previdência seja aprovada e os agentes passem a vislumbrar uma trajetória sustentável para nosso endividamento. Utilities e Shopping Centers perfazem pouco mais de um quarto de nosso portfólio. Somos otimistas quanto ao crescimento do PIB, provavelmente atingindo 2,5% neste 2019. Setores como o varejo e o financeiro também devem se beneficiar neste ambiente, valendo o destaque de que parte desta retomada já está contemplada nos preços dos ativos. A retomada na atividade deve favorecer também segmentos da indústria de base, como o de siderurgia. Temos exposição de 13% no setor.


Não poderíamos encerrar essa carta mensal sem agradecer aqueles que depositaram sua confiança em nossa gestão, durante este longo e tumultuado processo, quando nosso país correu grande risco de se transformar numa republiqueta de bananas. Desde 2016, logramos êxito em antecipar o Impeachment de Dilma Rousseff e também na leitura de que Jair Bolsonaro seria a melhor alternativa dentre os candidatos. Num determinado momento havia grande desconfiança quanto suas reais intenções. Não é preciso repetir que quanto maior a incerteza e os riscos, maiores serão as recompensas no caso do acerto.


Estamos otimistas quanto à continuidade da retomada da atividade econômica no Brasil e também de que nossos congressistas tenham entendido tanto o resultado das urnas, quanto a urgência que temos quanto a busca do equilíbrio fiscal. Ele é imprescindível para que essa retomada não seja apenas mais um voo de galinha e sim o início de um longo período de crescimento sustentável e com enriquecimento e prosperidade para os brasileiros. Desnecessário dizer que as empresas brasileiras e, consequentemente, suas ações, refletirão essas boas perspectivas.


Um ótimo 2019 para todos!!!


Atenciosamente,

André Gordon


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