Carta do Gestor - Agosto de 2020

Prezados cotistas,

O mês de agosto se mostrou, novamente, bastante favorável para a maioria das bolsas do planeta, com destaque para as bolsas norte-americanas. O S&P fechou o mês com 7% de alta enquanto o Nasdaq subiu 11,05%. Ainda que sob certa suspeita, os indicadores econômicos mostram que a recuperação da atividade está em curso. Também houve a formalização do nome de Joe Biden como candidato pelo Partido Democrata para a presidência dos EUA, entretanto, as pesquisas de intenção de votos mostraram uma recuperação da popularidade do presidente Trump. Dentre os principais óbices aos mercados que uma vitória do candidato democrata traria, encontram-se as propostas para a elevação da carga tributária das empresas e sobre patrimônio.


Apesar da euforia nas bolsas, nosso IBOVESPA teve uma queda de 3,45% no mês enquanto o GTI Dimona caiu 0,59%. O Real se depreciou em 5% e nossa curva de juros longa se deslocou quase 1% para cima. Foram divulgados os resultados referentes a atividade no segundo trimestre do ano, um pouco pior do que as expectativas. A queda histórica de 9,7%, entretanto, não foi a justificativa para o mau desempenho de nossos mercados no mês. As principais medidas adotadas pelo governo têm mostrado resultados bastante positivos, tanto para a preservação de empregos quanto para a preservação de renda. O mercado de trabalho trouxe novas surpresas positivas, com a criação de 130 mil novos postos de trabalho em julho, ante uma expectativa de fechamento de 18 mil e há diversos sinais de que a retomada da atividade tende a ser em V. Os dados de produção industrial de julho apontaram para uma alta mensal de 8%, apenas 3% de queda em relação a 2019, com destaque para a produção de automóveis. Todos os principais indicadores de confiança do consumidor e dos empresários, além dos índices de compras, de serviços e composto seguem apresentando forte evolução positiva.


E por que o mau humor? O principal motivo foi a desconfiança de que haveria esforços para derrubar o “teto dos gastos”, numa evidência de que o Ministro Paulo Guedes poderia estar perdendo força para setores mais “desenvolvimentistas” do governo. Essa preocupação atingiu seu ápice em meados de agosto, após o anúncio da saída dos secretários de desestatização, Salim Mattar e da desburocratização, gestão e governo digital, Paulo Uebel. Paulo Guedes havia se referido a estes anúncios como uma “debandada”. Nós acreditamos que estes rumores, que existem desde o início do governo, seguirão presentes até o seu final, mas felizmente, costumam ser apenas rumores ou disputas internas, frequentes na política. Paulo Guedes nos parece bastante comprometido com o governo e com uma agenda mais ortodoxa. Também acreditamos que ele seja sensível às necessidades e urgências que foram despertadas com a pandemia. Consideramos injusto tratar o Ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, como um “desenvolvimentista” linha cepalina, haja visto seu desempenho e importância para a aprovação da Reforma da Previdência assim como também o Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que tem se destacado muito na condução de importantes obras, muitas das quais estavam inacabadas havia décadas. O governo Bolsonaro deve muito da recuperação de sua popularidade ao desempenho destes três Ministros.


Essa crise política perdeu fôlego com o anúncio feito pelo Presidente de que Paulo Guedes iria até o final de seu governo e com o acordo para a prorrogação do “coronavoucher” até o final do ano, com seu valor reduzido para R$ 300/mês. Houve outra agitação nos mercados com a derrubada de um veto presidencial ao reajuste de salários do funcionalismo público pelo Senado, mas que no dia seguinte foi mantido pela Câmara dos Deputados.


E toda essa sensibilidade dos mercados às intempéries políticas se deve ao grande desequilíbrio fiscal e que foi alavancado pelos gastos com a COVID19. A relação entre dívida líquida e produto ultrapassou a marca de 60% e uma boa parcela do que se economizará com a Reforma da Previdência terá sido consumida ao longo deste ano. Na agenda há agora forte expectativa quanto às reformas tributária e administrativa, cujos projetos já começam a ser apreciados pelos congressistas. No caso da reforma administrativa os impactos se darão mais a longo prazo, já que contemplarão, provavelmente, apenas os novos funcionários. Certamente esperamos que ao menos ajude a melhorar as perspectivas futuras das despesas com folha, além de melhorar a eficiência da máquina com os incentivos às carreiras aprimorados. Já a Reforma Tributária, esperamos, terá grande impacto na redução de custo Brasil. Ainda é cedo, entretanto, para avaliar quais serão os setores e segmentos que terão perdas e quais os que serão beneficiados. Por ora contamos apenas com a simplificação e fusão de alguns impostos, o que já reduz bastante custos com controladoria por parte das empresas.


Mesmo neste ambiente tumultuado, diversas empresas fizeram aberturas de capital, assim como o BNDES se desfez de quase 8 bilhões de reais em ações da Vale. As ofertas de ações têm sido bem recebidas pelo mercado e estes recursos contribuirão para a retomada de investimentos, já que a maior parte é primária.


Dentre os destaques do mês, as ações da Metalúrgica Gerdau subiram 9,3%, respondendo ao bom desempenho da construção civil e as ações da JSL logística subiram 9,7% com a reestruturação societária do grupo. Passaremos a ser acionistas da SIMPAR, que será uma holding pura e cujas principais subsidiárias serão a JSL, a Vamos e a Movida. A JSL será também listada em bolsa, ao lado da Movida enquanto a Vamos deverá abrir seu capital provavelmente nos próximos 18 meses. Como destaque negativo no mês a queda de 31% nas ações da Cogna, cujos resultados do segundo trimestre foram bastante afetados pela Covid19, assim como as ações do Itaú que caíram 12,2%. No caso da Cogna, houve uma grande provisão para perdas futuras, além de uma queda no número de alunos no ensino presencial. Já o Itaú mostrou uma redução das suas provisões para devedores duvidosos em relação ao trimestre anterior, porém mostrou uma queda nas receitas com serviços, o que aumenta as incertezas quanto ao futuro dessas receitas.


Com o avanço das reformas ao longo deste ano, acreditamos na melhora da dinâmica de nosso mercado acionário. Consideramos as eleições dos EUA como um fator de risco relevante, ainda que acreditemos que as chances de uma vitória de Joe Biden tendem a se reduzir com a proximidade das eleições.



Atenciosamente,

André Gordon

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