Carta do Gestor - Abril de 2020

Prezados cotistas,

Após o complicado mês de março, tivemos em abril uma forte recuperação dos mercados, principalmente nos EUA, mas também aqui no Brasil. As bolsas norte-americanas tiveram o seu melhor desempenho mensal em mais de 33 anos com a alta de 12,6% do S&P. O IBOVESPA encerrou o mês com uma recuperação de 10,25% enquanto nosso portfólio teve alta de 13,4%.


Já há diversos laboratórios pelo mundo desenvolvendo uma vacina para a COVID19, alguns já em fase de testes. Para que as esperadas vacinas cheguem ao mercado, entretanto, ainda serão meses, quiçá mais de um ano. Também têm sido experimentado diversos coquetéis antivirais com resultados satisfatórios sobre pacientes já contaminados, mas nenhum protocolo que tenha sido adotado de forma unânime, mesmo dentro de um país específico.


Podemos observar também que a evolução da pandemia parece seguir um padrão nos mais diferentes países, com variações relativamente pequenas, apesar de diferentes abordagens adotadas para combater a sua proliferação. O governador de Nova Iorque, região do mundo mais afetada pela COVID19, reconheceu que 66% dos casos eram de pacientes que estavam em suas casas, respeitando a quarentena, diferentemente do que se esperava.


Vários foram os infectologistas que consideravam que, a partir de certa massa crítica de contaminados pelo mundo, seria praticamente impossível evitar a pandemia. O desejado seria “achatar a curva” ou, de outra forma, reduzir a velocidade de transmissão (R0) da Covid-19. Uma a uma, as principais nações foram anunciando os lockdowns, em diferentes graus. Os governantes que não aderiram de bate pronto, como o Primeiro-Ministro Boris Johnson, foram massacrados nas redes e através da imprensa. Diante do grande desconhecimento quanto ao “novo corona vírus”, quem se arriscaria em ser responsabilizado por centenas de milhares de mortes, tal como o famoso estudo da Imperial College London projetava?


No início do ano, a forma de combater a epidemia, assim como seus efeitos, vinha acompanhada de grande incerteza. A referência chinesa era de pouca utilidade, dada a falta de transparência. Como os bons resultados obtidos por Taiwan e mesmo os procedimentos de distanciamento social adotados pelo Japão, pela Coréia do Sul ou por Singapura, países que já haviam enfrentado outras epidemia nas décadas anteriores, pouco atraíram a atenção e o interesse da grande parte mídia. O que nos chegou e ajudou a alastrar o pânico foram as imagens vindas da Itália e, em seguida, da Espanha. Imediatamente houve a transposição do caos hospitalar da Lombardia para diversos países e para o Brasil, em particular. No nosso caso, pouco contou termos uma população, em média, 15 anos mais nova que a italiana, um sistema de saúde consolidado e universal, com quase o dobro de leitos por habitante, por estarmos com uma temperatura média 20 graus superior a do inverno europeu ou mesmo, por termos quase um mês a mais para iniciar algumas ações preventivas.


Mas isso tudo já é passado e discorremos, brevemente, em nossa carta anterior. O que temos, neste momento, é o entendimento que os principais países europeus ou estabilizaram ou estão reduzindo o número de casos ativos, inclusive, fechando hospitais de campanha. Nos EUA, principalmente em Nova Iorque, o estado mais afetado, também já parece que o pior ficou para trás. E se não há risco de colapso no sistema hospitalar, paulatinamente começa a haver a reabertura do comércio, das escolas e dos serviços.


Mas no Brasil, a crise política que já vinha sendo desenhada nos últimos meses, ganhou novos capítulos em meio ao auge da pandemia. O combate à pandemia foi partidarizado. De um lado o Presidente da República defendendo um lockdown vertical, com a volta às atividades por parte dos grupos de menor risco e do outro lado, a maioria dos governadores, defendendo um lockdown mais severo e, contando com o apoio do então Ministro da Saúde, Henrique Mandetta, que acabou demitido.


Esse conflito foi estilizado pela mídia: de um lado o Presidente preocupado com os empregos e do outro lado os governadores e prefeitos preocupados com a vida. Alguém que chegasse do espaço e caísse em Brasília deveria se questionar se não seria possível conciliar a saúde física com a saúde econômica. O oportunismo político de alguns governadores ultrapassou a linha divisória entre um debate saudável e uma briga de rua. Com a aprovação de leis que garantirão aos estados e municípios a restituição de parte dos impostos que deixarão de ser arrecadados com a retração da atividade, a maior parte do rombo deixado pela pandemia recairá sobre a União, enfraquecendo muito o governo federal e sendo um grande revés para a equipe econômica, depois de grande esforço, nos últimos meses, na direção do equilíbrio fiscal. Para esses governadores, a fraqueza do Presidente significa uma oportunidade para as eleições de 2022.


Com o estado de calamidade pública, a união transferiu grandes somas de recursos para os estados e municípios, recursos estes a serem gastos na compra de equipamentos e contratação de pessoal para o combate à pandemia. Já temos alguns indícios de má gestão destes recursos, uma vez que gastos emergenciais dispensam licitações.


Como se os problemas naturais causados pela pandemia já não fossem suficientes, o então Ministro da Justiça, o ex-juiz Sérgio Moro, resolveu pedir demissão. Sérgio Moro era visto como um dos pilares do governo, um símbolo no combate à corrupção. Moro, que havia recebido a promessa do presidente de que teria liberdade para montar sua equipe, não aceitou o pedido de troca na diretoria da Polícia Federal. Jair Bolsonaro já demonstrava certa decepção com a atuação do ex-diretor da PF, Maurício Valeixo. Moro entendia que não havia motivos para esta troca. Optou por sair e, saiu fazendo insinuações sobre as motivações por trás desta ação, além do risco de interferência política. Bolsonaro ainda é visto como alguém que, apesar de 30 anos de vida pública, jamais fora acusado de quaisquer escândalos de corrupção, algo bastante raro no Brasil. As insinuações de Moro, no primeiro momento, deixaram os mercados em pânico, com a BOVESPA tendo caído quase 9% ao longo do dia. Houve especulações de que o Ministro Paulo Guedes também poderia deixar o governo.


Paulo Guedes e Bolsonaro reafirmaram que nada muda na política econômica, nem ministro e nem diretrizes principais. Acreditamos que os próximos meses serão decisivos para a permanência do ministro. Esperamos que Guedes siga até o final do mandato de Bolsonaro, mas ainda que por algum motivo isso não ocorra, seu sucessor deve seguir a mesma política. Percebemos um grande atrito e grande vontade de derrubá-lo por parte do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que nunca perde a oportunidade para desgastá-lo ou ajudar a coloca-lo em rota de colisão com o Presidente da República. Quanto a Sérgio Moro, foi convocado para depor na sede da Polícia Federal de forma bastante rápida e seu depoimento foi tornado público dias depois. Como o próprio Ministro diria, a montanha pariu um rato. Um depoimento sem nenhuma acusação contra o presidente e reafirmando que ele jamais havia interferido em nenhum inquérito. As preocupações seriam quanto à interferência futura. Aparentemente, Moro agiu como político e, nos parece, por hora, que começou muito mal. Era vilão para os esquerdistas e herói para a maioria, cuja uma parcela significativa passou a enxergá-lo como um traidor. Houve interferência do Ministro do STF, Alexandre de Moraes suspendendo a indicação do novo diretor da PF e, por alguns momentos, houve a preocupação de que pudéssemos entrar numa grave crise institucional entre os poderes da República. Por fim, após reuniões envolvendo as principais autoridades do país, a temperatura abaixou um pouco.


Ainda não temos as estatísticas de desemprego no Brasil, mas nos EUA elas aumentaram 10%, incorporando mais de 20 milhões de pessoas. O pacote de auxílio do governo federal deve contribuir para preservar alguns milhões de empregos, de forma que nossos números tendem a ser proporcionalmente melhores, apesar de igualmente catastróficos. Tanto as medidas de proteção ao emprego quanto a ajuda aos mais carentes entre outras medidas, custarão em torno de 7% do PIB ao longo dos próximos meses. Na data em que escrevo essa carta, o governador de São Paulo, João Dória, aumentou o prazo para a quarentena de 11 de maio para o final do mês, colocando em risco mais alguns milhões de emprego e milhares de estabelecimentos.


Houve deflação de 0,31% em abril, levando a taxa acumulada em 12 meses para 2,4%, abaixo da banda inferior de 2,5%. O Banco Central que já havia promovido um corte de 0,75% na taxa SELIC, para 3% ao ano e deixou aberto o espaço para um último corte de até igual magnitude.


Dentre os destaques de nosso portfólio citamos a empresa de logística JSL, com alta de 45,17% no mês, seguida pela alta de 38,5% da Cogna - empresa de educação. Como destaque negativo citamos o desempenho das ações do banco Itaú, que caíram 1,3% no mês. O Itaú aumentou a provisão trimestral em R$ 5 bilhões se antecipando às perdas esperadas e, conforme a extensão da nossa quarentena, provisões adicionais devem ser esperadas para os próximos trimestres. O banco também perdeu em torno de R$ 600 milhões com a limitação na taxa de juros para cheque especial em 8% ao mês, decidida pelo CMN.


Por fim, não podemos deixar de comentar o fato inédito ocorrido ao longo deste mês. Com o colapso na demanda por combustíveis e lentidão para o ajuste na oferta de petróleo os principais governos e traders foram aproveitando os preços promocionais do barril de petróleo para recompor seus estoques. Próximo ao vencimento do contrato futuro negociado em Chicago aumentou o risco de liquidação física ao invés da usual liquidação financeira pelo preço de ajuste. Imaginem, por exemplo, um gestor de fundo em Manhattan ou um investidor em seu iate tendo que se organizar para receber 1000 barris de petróleo para cada contrato comprado? Além dos custos de armazenagem e de logística, também há toda a burocracia envolvida. Esses compradores foram às vendas, levando as negociações para preços negativos, tendo atingido menos 40 dólares por barril. Tempos estranhos!!!!


O mês de maio deve seguir sensível a esta dinâmica de expectativa de retomada da atividade. Quanto mais previsível o horizonte, maior a probabilidade da retomada ser mais rápida. Reafirmamos o nosso conforto com investimento em boas empresas que, não apenas devem sobreviver à incompetência dos governantes, mas inclusive encontrar um ambiente competitivo mais favorável após a volta.

Atenciosamente,

André Gordon



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