Carta do Gestor - Maio de 2020

Prezados cotistas,


O mês de maio foi marcado pela volta do otimismo, o que levou a maioria dos índices de ações a uma forte recuperação. O S&P 500 subiu 4,5% enquanto o Nasdaq 6,2%. Os principais índices europeus superaram os 6% de alta enquanto o Nikkei e o IBOVESPA tiveram alta superior a 8%. Nosso portfolio subiu 6,1%, com algumas ações ainda apresentando um comportamento mais tímido, por conta da prorrogação da quarentena.


Conforme o COVID 19 tenha atingido seu pico epidêmico nos EUA e nas principais nações europeias, os governos iniciaram protocolos de retomada da atividade. E, para a surpresa dos mais pessimistas, em diversas cidades, o que se viu foi a volta da normalidade, ainda que seguindo diversas restrições e medidas protetivas. Em paralelo, já há quase uma dezena de vacinas em fase final de testes e mais de uma centena em diversos níveis de estudo. Essas variáveis ajudaram a reduzir drasticamente as incertezas que ainda pairavam sobre os mercados. Agora é hora de apurar as contas. Algumas empresas encontrarão um cenário bastante desafiador pela frente, enquanto outras aumentaram ainda mais a sua distância em relação aos concorrentes. Houve uma busca por qualidade.


A destruição de empregos era nossa maior preocupação no que tange a retomada da atividade. Com a divulgação dos números referentes ao mercado de trabalho, entre os meses de fevereiro e abril, apesar de muito negativos, vieram bem melhor do que nas nossas expectativas. O desemprego de abril foi de 12,6%, melhor que o 13,3% esperado. Em fevereiro foram abertas 224 mil vagas, quando a economia ainda seguia acelerando, mas em março, quando começou a quarentena, 240 mil vagas foram fechadas. No mês de abril, o pior da série histórica, foram fechados 860 mil postos formais e trabalho. Nos EUA, ainda em março foram 10 milhões de novos pedidos de seguro-desemprego e mais 20 milhões em abril. As medidas do governo, compensando parcialmente empregadores e empregados ajudou a preservar alguns milhões de postos de trabalho. Por isso a importância dos cronogramas de volta da atividade. Sem visibilidade, a propensão a demitir aumentaria muito, conforme a quarentena fosse postergada.


O STF havia delegado aos Estados e Municípios as decisões a respeito da retomada da atividade pelo país. Na prática, entretanto, quando prefeitos decidem de forma contrária aos governadores, juízes tem concedido liminares aos Estados. Os Estados iniciaram cronogramas bastante conservadores para a retomada da atividade e, em muitos casos, cronogramas e medidas absolutamente draconianas e equivocadas. Governadores e seus tecnocratas, muitos da área da saúde, seguem as orientações defasadas da OMS e, como numa dança absolutamente sem sincronia, a cada novo passo parecem seguir o passo anterior do parceiro desastrado. O governo já sinalizou mais dois meses de ajuda aos brasileiros das classes mais baixas, propondo pelo menos R$ 300/mês. Possivelmente o populismo em alta poderá elevar este valor, aumentando o desequilíbrio fiscal para este ano.


O mês de maio também foi marcado pelo aprofundamento da crise político-institucional. Personalidades diversas se uniram em manifestos, sempre contando com o apoio do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, de alguns Ministros do STF, de boa parte da imprensa e da classe artística, da OAB e mais alguns expoentes de partidos do campo da esquerda, principalmente. Mais de duas dúzias de pedidos de impeachment foram encaminhados ao Rodrigo Maia, com motivações das mais diversas e tendo em comum apenas a ausência de materialidade ou de fundamentos. O presidente enfraqueceu algumas destas teses, seja tendo apresentado seu teste negativo para a Covid 19, seja pela ausência de atos criminosos ou ameaças na famosa reunião ministerial, liberada na íntegra pelo decano do STF ou seja pela ausência de acusações ou fatos relevantes por parte do ex-Ministro Moro e outros integrantes da PF ou do governo que foram inquiridos. Além da falta de material que pudesse servir como base para um pedido de impeachment, houve a aproximação ente Jair Bolsonaro e partidos de centro e deve garantir uma maioria para a aprovação, pelo menos, de projetos de Lei Complementar, que exigem maioria absoluta, além, obviamente, de conseguir barrar quaisquer tentativas de impeachment.


Sem poder contar com o Congresso, o STF tem sido usado como pivô para tentar derrubar o governo. Sabemos que essa é uma premissa forte, mas aqui não nos cabe florear a aridez do deserto, mas sim avaliar os fatos que têm se somado e estão nos causando certa apreensão e estranheza. O STF que, na impossibilidade de inocentar o ex-presidente Lula a partir das diversas ações julgadas e tramitadas, algumas até a terceira instância, alterou sua jurisprudência, pela terceira vez em poucos anos, suspendendo as prisões após as condenações em segunda instância, o que levou a soltura de Lula, José Dirceu entre diversos outros criminosos. O sinal passado pela corte foi o pior possível, principalmente num país acostumado com crime e impunidade. Essa manobra aumentou nossa preocupação no que se refere ao combate à corrupção. Como se não bastasse, o STF se aventurou por um inquérito absolutamente irregular sobre “fakenews”, desde a escolha de seu relator por indicação, até o fato de não caber àquela corte julgamentos sobre crimes que não tenham ocorrido em suas dependências físicas. Começou por conta de ataques virtuais nas redes contra os integrantes da Corte, mas passou a ser direcionado para um tal “gabinete do ódio”, supostamente coordenado por pessoas próximas ao Presidente da República. Se boa parte das acusações não tivessem sido originadas a partir de depoimentos de deputados que formam um grupo histriônico e novo opositor ao presidente, talvez o tema merecesse alguma apreensão. Uma das deputadas que acusava o entourage do presidente de fomentar o ódio nas redes, acabou sendo ela própria, acusada por uma assessora, de ter cometido os mesmos crimes que ora acusa seus adversários, o que deve esvaziar também essa tentativa de se impedir o presidente. Restará apenas o caminho de tentar anular as eleições pelo TSE, que deve reunir o material deste inquérito do STF. Consideramos bastante remotas essa possibilidade, principalmente porque, ainda que tenham sido criados milhares de perfis “fake”, eles não votaram. E mais, provavelmente todos os candidatos, principalmente os que dispuseram de mais recursos eleitorais, podem ter criado seus “robôs” pelas redes ou pelo telefone e, alguns dos quais transmitindo as tais “fakenews”. Como provar que influenciaram os resultados de forma decisiva???


Com a crise ganhando corpo, o dólar chegou próximo aos 6 reais. O Banco Central passou a vender volumes maiores de reserva, num movimento inteligente por pelo menos duas razões: temos reservas grandes o suficiente e cujo lastro tem rendimento hoje próximo de zero e, os números de transações correntes indicam melhora substantiva em andamento, na direção do equilíbrio. Conforme os eventos acima descritos foram se desenrolando, juntamente com redução na aversão ao risco global, o Real passou a se apreciar, fechando o mês com queda de 2,75%.


O destaque do mês foi o desempenho de 18,1% das ações da Vale, principalmente por conta da resiliência e alta do preço do Minério de Ferro diante do cenário de retomada global de atividade. Por outro lado, as ações ligadas ao setor de Shopping Centers e properties sofreram bastante, com o adiamento da quarentena e com as perspectivas de maiores dificuldades dos lojistas após a retomada.


Acreditamos que o pior parece ter ficado para trás e que a pandemia já tem sido vista com menos pânico e maior racionalidade. No nosso mercado, entretanto, ainda estamos bastante defasados, tanto por conta da defasagem no ciclo epidêmico quanto por conta desta crise político-institucional. Esperamos que ambos fatores sigam se dissipando ao longo dos próximos meses.


Atenciosamente,

André Gordon

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