Carta do Gestor - Fevereiro de 2022


Prezados cotistas,


O IBOVESPA subiu 0,89% em fevereiro, no seu terceiro mês seguido positivo, apesar de forte queda nas principais bolsas do mundo. O dólar se manteve estável em relação à cesta de moedas, exceto pela sua depreciação de 3% em relação ao Real, provavelmente refletindo a volta triunfal do carry trade e pela forte valorização em relação ao Rublo, refletindo o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. O movimento mais relevante do mês ficou por conta da alta de 4,5% no índice de commodities, com destaque para os 8,5% no barril de petróleo (gráfico abaixo), refletindo o risco de desabastecimento por conta de restrições e embargos impostos pela ONU sobre a Rússia. O nosso portfólio encerrou o mês superando o IBOVESPA em 14 bps, chegando a 6,5% de variação no ano.


Ao longo do mês, o número de novos casos de Covid 19 no mundo caiu mais de 50% e 60% no Brasil. A virulência da variante Omicron combinada com a vacinação recorde aparentemente garantiram uma imunização de rebanho. Diversos países têm levantado as restrições todas e suspendido, inclusive, os “passaportes sanitários”.


Os indicadores de inflação nas economias desenvolvidas seguiram pressionados, o que parece ter antecipado para o mês corrente o início do aperto monetário pelo FED. Nosso BC elevou em 1,5% a taxa Selic, para 10,75% e sinalizou que o processo de ajuste está chegando ao seu final. Em 16 de março devemos ter mais uma alta de 1% que, não fosse pela guerra, teria grande chance de ter sido a última.


O grande evento no mês, entretanto, ficou por conta do início do que pode ser o maior conflito em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial. A Rússia aproveitou a fraqueza das principais lideranças ocidentais para pôr um final definitivo a ameaça que a Ucrânia fazia, pelo menos desde a Revolução Laranja, em 2004, de se aproximar do Ocidente, inclusive ingressando na OTAN. A Rússia também nunca escondeu seu desejo de manter as antigas Repúblicas Soviéticas, como Estados Satélites e sob sua influência direta. Em 2014, logo após a queda do presidente Viktor Yanukovitch, pro-Rússia, após os famosos protestos na Praça Zaiden, Putin invadiu e anexou a Criméia, região de maioria russa. Na mesma época, duas províncias de maioria russa, Donetsk e Luhansk, declararam suas independências, não reconhecidas nem pela Ucrânia e nem pela comunidade internacional.


Inicialmente, acreditou-se que Vladimir Putin ocuparia essas provinciais, além de exigir o reconhecimento de sua soberania sobre a Criméia e o abandono da ideia de integrar a OTAN. Como as potenciais ocidentais ficaram mais na retórica, Putin em menos de uma semana ocupou algumas cidades importantes da Ucrânia, além de cercar sua capital Kyiv (ou Kiev). A resposta dos países ocidentais veio através do anúncio de envio de armas e ajuda financeira, ainda não recebidos e de embargos diversos contra a Rússia.

A Rússia responde por quase 8% da oferta global e petróleo e abastece de gás natural mais da metade de países como a Alemanha, de forma que o embargo não tem como ser pleno e, portanto, são menores as chances de reversão dessa situação no curto prazo.


Os riscos de desabastecimento de petróleo, gás natural, fertilizantes e grãos como trigo, levaram a alta recorde nos preços das commodities, alimentando as pressões inflacionárias, inclusive no Brasil. Ainda é prematuro qualquer prognóstico sobre como terminará este conflito. Não temos como avaliar a disposição dos ucranianos em travar resistência de guerrilha, o que poderia trazer grande desgaste interno ao Putin, impondo-lhe um pesado custo político, mas não sem os pesados custos em termos de vidas, além do financeiro. Ainda há espaço para negociações bilaterais, com ou sem intermediação de outros países, mas até o momento as partes não mostraram nenhuma disposição em fazer concessões. Também não podemos descartar uma deterioração maior na situação da Ucrânia e que leve as nações ocidentais a tomar atitudes mais enérgicas, escalando o conflito para outro patamar. A história europeia de complacência com a Alemanha nazista nos ensinou que ter feito concessões para países cujo apetite expansionista se mostre insaciável, apenas tornou a guerra inevitável ainda mais sangrenta.


A depender deste desenvolvimento, os cenários serão distintos. O Brasil, entretanto, se mostra dentre os países no mundo em melhor situação. A geografia nos garante a distância das áreas de conflito e a autossuficiência agrícola e energética nos blindam de desabastecimento. Pelo contrário, uma guerra tende a favorecer países exportadores de matérias primas e comodities. Termos um mercado doméstico grande e com capacidade ociosa também nos permite preservar o crescimento econômico, seguindo a recuperação em V, pós Covid19.


Nosso portfólio segue com bastante alocação em empresas exportadoras de commodities e, naquelas voltadas para a economia doméstica, preferimos o varejo de bens menos discricionários além de empresas com forte geração de caixa, tanto de utilities quanto de properties. As próximas semanas devem ajudar a clarear um pouco o cenário externo, na esperança de que o equilíbrio volte a prevalecer nas relações entre os países.


Até o momento as indicações são de que a Rússia tende a sair vitoriosa, apesar das diversas violações cometidas, mas que tendem a seguir impunes pela combinação entre a inoperância da ONU e a fraqueza demonstrada pelo governo Biden. No caso ela poderia fazer alguma concessão ou recuo, em troca de garantias e de reconhecimento da independência das áreas de maioria russa.



Alocação setorial - GTI Nimrod FIA


Atenciosamente,

André Gordon.