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Guerra em Hormuz: O Que Está em Jogo para o Agronegócio Brasileiro

Impactos da Crise no Fornecimento de Fertilizantes e nos Custos de Produção


Contexto: O Fechamento de Hormuz

Em 28 de fevereiro de 2026, após ataques aéreos israelenses e norte-americanos ao Irã, o Estreito de Hormuz foi fechado ao tráfego marítimo comercial. Por ali transitam aproximadamente 20% do petróleo global, 20–25% do GNL (gás natural liquefeito) e cerca de um terço de todo o comércio marítimo de fertilizantes.

Enquanto o petróleo ocupa o centro das manchetes, um impacto menos visível — mas igualmente relevante para o Brasil — está se desenrolando: a disrupção na cadeia global de fertilizantes, que pode trazer consequências significativas para o agronegócio brasileiro.

 

Por Que Isso Importa para o Agronegócio Brasileiro?

Para entender o impacto, é preciso partir de uma premissa básica: sem fertilizantes, não há lavoura produtiva. Eles fornecem os nutrientes que o solo sozinho não consegue repor na escala e velocidade exigidas pela agricultura moderna.

O Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, respondendo por cerca de 17% da demanda global. Isso significa que, diferente de países como os EUA — que produzem boa parte do que consomem —, o Brasil depende quase integralmente do mercado externo para abastecer sua agricultura. O Brasil importa aproximadamente 85% de todos os nutrientes utilizados na agricultura, com dependência estruturalmente crítica nos três macronutrientes essenciais para o crescimento das plantas:

  1. Potássio (K): ~95% importado — é o nutriente que regula o metabolismo da planta e aumenta a resistência a doenças e estresse hídrico. Sem ele, soja e milho simplesmente não atingem seu potencial produtivo.

  2. Nitrogênio/Ureia (N): ~90% importado — é o principal responsável pelo desenvolvimento vegetativo (folhas, hastes, grãos). A ureia é o fertilizante mais utilizado no mundo e o mais impactado pelo fechamento de Hormuz.

  3. Fosfatados/MAP/DAP: ~70% importado — estimulam o enraizamento e o desenvolvimento inicial da planta.

 

Exposição por Tipo de Insumo ao Conflito

Nem todos os fertilizantes são afetados da mesma forma. A exposição depende de dois fatores combinados: de onde o Brasil importa cada produto e qual parcela do comércio global desse produto passa pelo Estreito de Hormuz.

O caso da ureia é o mais crítico: o Brasil importa ~90% do que consome, e quase metade dessas importações vêm de países do MENA (Middle East and North Africa) — exatamente os mais afetados pelo fechamento do estreito. O Irã, somado a Omã, Catar, Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes, exportou 36% da ureia utilizada pelo Brasil em 2025. Na média de cinco anos, a região exportou 47%. O preço já subiu entre 40% e 50% desde o início do conflito.

Já o potássio é um caso diferente: apesar de o Brasil importar praticamente tudo (95–98%), os principais fornecedores são Canadá, Rússia e Belarus — países que não dependem de Hormuz para exportar. Por isso, o impacto no potássio tem sido muito menor até o momento.

A tabela a seguir consolida, por fertilizante, o nível aproximado de dependência do Brasil e a exposição ao fechamento de Hormuz:


Insumo

% Import. pelo BR

% MENA nas Import. BR

% Comércio Global via Hormuz

Variação de Preço desde 28/Fev

Ureia (N)

~90%

~45%

~40%

+40 a +50%

MAP / DAP (P)

~78%

~47%

~40%

+16 a +30%

Potássio (K)

~95–98%

~8%

~15%

+5% YTD

Impacto na margem do produtor

Na estrutura de custos do produtor, os fertilizantes representam, em média, 18% da receita bruta na soja e 30% no milho 2ª safra. Adotando um cenário-base de alta de 40% no preço dos fertilizantes, o impacto estimado é uma perda de aproximadamente 7 p.p. de margem bruta na soja (40% × 18%) e de 12 p.p. no milho (40% × 30%). Em um ambiente onde as margens já eram apertadas — o Cepea projetava queda superior a 25% na margem bruta da soja mesmo antes do conflito —, esse choque adicional é materialmente relevante.

Em sacas por hectare, o produtor de soja passaria de ~9,4 para ~13,2 sacas/ha em fertilizantes — um custo adicional de quase 4 sacas/ha. No milho, o impacto é ainda mais expressivo: de ~24 para ~34 sacas/ha, um acréscimo de ~10 sacas/ha em uma cultura que já opera com margens historicamente mais estreitas.

Um ponto importante — e que ajuda a mitigar o impacto: as safras atualmente em colheita estão em grande parte protegidas, pois os estoques de fertilizantes já haviam sido internalizados. O impacto se materializa na safra de verão 2025/26, cujo plantio começa em agosto e cuja janela de compra de insumos vai até julho.

 

Conclusão

 

O fechamento do Estreito de Hormuz pode representar um choque importante sobre a estrutura de custos do agronegócio brasileiro. Empresas com maior exposição ao milho, menor poder de repasse e dependência elevada de fertilizantes nitrogenados tendem a ser as mais afetadas. Produtores com política ativa de hedge e disciplina na compra antecipada de insumos conseguem se proteger melhor da volatilidade e historicamente são justamente esses players que aproveitam os momentos de estresse do setor para expandir área de produção em condições mais favoráveis. Monitorar a duração do bloqueio, as restrições de exportação de China e Rússia e a evolução do preço da ureia nos portos brasileiros será determinante para calibrar o tamanho real desse impacto sobre as margens do setor.

 

 

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