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Petrobras: quais são os riscos do governo Lula para a estatal? Rodrigo Glatt conversa com a BP Money

PT já sinalizou que não concorda com a política da Petrobras, que "retira a capacidade de investimento da empresa e enriquece acionistas"

3 de novembro de 2022 15:04 - Atualizado em: 3 de novembro de 2022 15:14


A maneira como o governo Lula irá conduzir as políticas da Petrobras (PETR3;PETR4) – e de outras estatais – é um dos fatores que mais preocupam o mercado em relação a troca de comando do País. No governo de Jair Bolsonaro (PL), a Petrobras registrou recordes em lucros e distribuição de dividendos. Investidores e profissionais do mercado temem mudanças na estatal, desde a Política de Paridade de Preços (PPI) até a distribuição de dividendos da empresa, que podem interferir na performance da companhia na bolsa de valores de São Paulo (B3).


Segundo Sidney Lima, analista da Top Gain, um dos temores do mercado em relação à Petrobras, com o novo governo, está ligado a possibilidade de que a empresa possa ser utilizada como “instrumento de política social”, já que Lula se diz à favor de “abrasileirar” os preços praticados pela empresa.


“O maior temor dos grandes investidores da Petrobras se dá pelo fato que o presidente eleito se posicionou por várias vezes sendo contrário à Política de Paridade de Preços (PPI)”, disse Lima.


“Lula também se diz à favor da construção de refinarias e tal fato pode ter um impacto direto na distribuição do lucro aos acionistas, pois, em curto prazo, utilizaria o caixa disponível e isso traz uma série de incertezas, principalmente se observado o histórico da gestão petista nos últimos governos”, destacou o analista da Top Gain.


O PT já deu indícios de que pode alterar a política de preços adotada pela empresa desde outubro de 2016 (o que consequentemente mexeria com os resultados da estatal).


A presidente nacional do Partido do Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, afirmou, nesta quinta (3), que o partido não concorda com a política de distribuição de dividendos da estatal petroleira.


"Passada a eleição volta a sangria na Petrobras. Estão preparando a distribuição de $ 50 bilhões em dividendos. Não concordamos com essa política que retira da empresa sua capacidade de investimento e só enriquece acionistas. A Petrobras tem de servir ao povo brasileiro", escreveu em seu Twitter a deputada federal.


Para Lima, da Top Gain, a paridade internacional de preços traz uma certa segurança ao caixa da estatal, já que a receita da companhia é alinhada ao preço internacional do petróleo, e parte de suas despesas são dolarizadas e atreladas a esse preço no mercado global.


Para Rodrigo Glatt, sócio da GTI, um outro fator pode ser ainda mais influente nos resultados da empresa, com o novo governo. Glatt destacou que o governo Lula pode tentar alinhar a Petrobrás aos outros grandes players do segmento lá de fora, no sentido de diversificação dos investimentos da empresa em relação ao petróleo.


“Muitas ‘majors’, hoje, investem em energias alternativas, então, como o Lula provavelmente vendeu isso para o estrangeiro, da energia verde, e dessas coisas todas, existe uma chance de que ele use a Petrobrás para investir em energia eólica, energia verde, hidrogênio, essas tecnologias novas que, provavelmente, no curto prazo, tem um retorno muito menor do que se a empresa continuasse investindo na exploração de petróleo nos postos de pré-sal, principalmente”, explicou Glatt.


Para o sócio da GTI, esse seria o maior risco para a petroleira hoje. “Isso eu acho que é mais difícil de evitar, porque aí é uma diretriz da empresa, né? Então eles podem trocar os conselheiros, e aí eventualmente compor a maioria para aprovar esse tipo de investimento, que não necessariamente é mais rentável”, complementou o especialista em investimentos.


Na contramão de Lima, da Top Gain, Glatt afirmou que, apesar de existir o risco de mudança na política de preços da petroleira, a governança atual e a lei das estatais dificultam, um pouco mais, essa alteração.


“Obviamente, existe o risco dele interferir na defasagem dos preços, e o não alinhamento dos preços dos combustíveis em relação ao mercado Internacional pode trazer aqueles prejuízos que a gente teve lá no período da Dilma, principalmente. Apesar disso, acho que é mais difícil de acontecer isso hoje”, disse Glatt.


“A governança e a lei das estatais, de certa forma, blindam a empresa. Eu acho que vai ter uma cobertura, uma vigilância, muito maior do mercado em relação a isso, então eu acho que, apesar de ser um risco, é difícil acontecer”, completou o sócio da GTI.


Para Vitorio Galindo, head de análise fundamentalista da Quantzed, o mercado teme a mudança de trajetória da companhia, com a próxima administração indicada pelo governo para a estatal.


“O risco é que a administração nova interfira em todo o plano de desinvestimentos, rentabilidade, geração de caixa, dividendos e alocação de capital nos melhores ativos e projetos”, disse Galindo.


Segundo o head de análise da Quantzed, isso poderia acabar desmontando a estratégia que a empresa teve nos últimos anos, de alocação de capital em projetos e ativos que dão bons retornos.


Outro fator, já ponderado por Glatt e Lima, que é destacado também por Galindo, é uma eventual redução dos dividendos para alocação em projetos que não criem valor aos acionistas, inclusive para o governo.


Galindo destaca, no entanto, que esse riscos que estão no radar são apenas especulações e podem não acontecer no novo governo.

“É difícil saber se realmente vai acontecer. Pode ser que, eventualmente, nenhum desses riscos se concretize. É possível que aconteça, mas não quer dizer que é provável e nem que vá ocorrer nenhum desses fatores”, concluiu Galindo sobre a Petrobras.


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