E se os supermercados vendessem medicamentos? Veja a opinião da nossa sócia e analista Paola Mello.

Por: Ana Julia Mezzadri

Julho 8, 2022 - 17:01


Propostas envolvendo a liberação da venda de medicamentos por supermercados vêm e voltam no Congresso brasileiro. No acontecimento mais recente, uma comissão da Câmara dos Deputados realizou, no fim de junho, uma audiência pública para discutir a última proposta sobre o tema.


Prevista no Projeto de Lei 1774/19, que trata de medicamentos que não requerem prescrição médica, como analgésicos e antitérmicos, a discussão dividiu opiniões na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. Alguns parlamentares se colocam do lado dos representantes de farmácias, que alertam para a possibilidade de uso inadequado de medicamentos caso a venda não ocorra em drogarias, onde há a presença de farmacêuticos. Do outro lado, deputados se juntam a representantes do setor de supermercados, que apontam que a medida permitiria um acesso mais amplo a remédios e preços mais baixos.


Além das questões envolvendo a responsabilidade na venda dos medicamentos e o acesso por parte da população, há uma outra ponta deste debate: o impacto econômico sobre as empresas envolvidas.


Farmácias


Para Rafael Dancour, analista da MOS Capital, haveria um efeito negativo sobre as farmácias, uma vez que um novo canal de concorrência seria aberto, impactando principalmente as drogarias menores, que correspondem a cerca de 50% do mercado, segundo o analista.


Na análise de Paola Mello, analista de investimentos da GTI Administração de Recursos, o impacto nas farmácias seria baixo, devido à alta capilaridade das redes.


“Quando uma pessoa quer um produto de saúde, ela naturalmente se dirige à farmácia. E a rede de farmácias é muito capilarizada – dificilmente, em grandes cidades, é preciso andar mais de três quadras para achar alguma”, explica Mello.


No final do primeiro trimestre deste ano, as quatro redes de farmácias com ações listadas na Bolsa de valores, como Raia Drogasil (RADL3), Pague Menos (PGMN3), Panvel (PNVL3) e d1000 (DMVF3), tinham, juntas, 4.438 lojas espalhadas por todas as regiões do país.


Já as redes de supermercados de capital aberto, como Carrefour (CRFB3), Pão de Açúcar (PCAR3), Grupo Mateus (GMAT3) e Assaí (ASAI3), possuíam, juntas, 1.914 lojas – 57% a menos do que as farmácias.


Outro ponto que faz com que as farmácias não devam sentir tanto impacto, de acordo com Mello, é que os medicamentos isentos de prescrição são apenas uma parte de suas vendas. No primeiro trimestre, esta categoria de produtos correspondeu a 22,7% das vendas da Raia Drogasil, 23,1% da Pague Menos, 15,7% da Panvel e 25,3% da d1000.


Supermercados


Em uma análise rasa, seria lógico concluir que os supermercados teriam muito a ganhar com a medida, uma vez que poderiam incluir mais uma categoria de produtos em seu portfólio.


Por um lado, isso pode ser verdade, ainda mais considerando que medicamentos tendem a ter margens maiores do que os alimentos. Além disso, pode ser um passo na estratégia de algumas redes de varejo de aumentar sua presença nos gastos dos clientes, tornando-se one stop shops – isto é, um local onde os consumidores podem comprar diferentes tipos de produtos.


“Mas acho que haverá implicações que depois, na prática, não necessariamente serão tão benéficas. Pode até ser positivo, mas não irá mexer a agulha em termos de faturamento e margens”, diz Dancour.


De fato, a inclusão desses itens na oferta de um supermercado pode vir acompanhada de complicações. Em primeiro lugar, existe a possibilidade de, caso a medida seja aprovada, os supermercados serem obrigados a contratarem farmacêuticos para suas lojas, aumentando os custos de operação.


“As farmácias passaram anos qualificando o profissional farmacêutico para que ele também fosse o gerente da loja, porque se não a conta não fecha. O supermercado já tem a figura do gerente de loja. Além disso, vai ter um outro funcionário fixo”, explica Mello, da GTI.


Há também uma mudança estrutural em curso no formato de supermercados que, nesse âmbito, pode dificultar as coisas. Nos últimos anos, as lojas no formato de hipermercado têm perdido força para as lojas de atacarejo e as lojas pequenas, de conveniência.


O formato de atacarejo, explica Dancour, da MOS, funciona com poucos colaboradores para auxiliar o cliente durante as compras, de modo que a exigência de se ter um farmacêutico pode ir contra seu modelo de negócios.


Nos formatos de conveniência, o espaço limitado para a exposição de produtos pode ser uma dificuldade adicional. “Colocar um item novo necessariamente envolve tirar algo que está lá. Não existe área vazia em gôndola”, aponta o analista da MOS Capital.


Além da inclusão de novos itens nas gôndolas, Dancour menciona também a necessidade de criação de estoques de medicamentos. “Não sei se essa conta fecha”.

Para a analista de investimentos da GTI Administração de Recursos, a compra de medicamentos em supermercados seria um consumo de impulso – e a localização dos produtos nas lojas precisaria ser adequada a isso.


“Ninguém vai pensar ‘estou resfriado, vou ao mercado’. Mas, às vezes, ao ver um medicamento, as pessoas podem pensar ‘o meu analgésico está acabando, vou comprar outro’”, explica Mello. “Então seria preciso ocupar lugares nobres, perto dos caixas ou em pontas de gôndolas”, completa.


Finalmente, Mello destaca que o mercado de farmácias é altamente competitivo e, como os supermercados poderiam vender apenas uma classe pequena de medicamentos, não teriam um poder de barganha maior do que o de grandes redes de drogarias – ou seja, não conseguiriam vender os remédios a preços mais baixos.


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