Carta do Gestor - Março de 2022

Prezados cotistas,


O IBOVESPA teve forte alta, de 6,06% em março, em seu quarto mês positivo seguido, acompanhando a recuperação das bolsas do mundo. O dólar se apreciou 1,7% em relação à cesta de moedas, mas perdeu quase 8% de seu valor em relação ao Real, acumulando 15% no ano. A nova alta na taxa Selic, de 1%, para 11,75%, estimula o carry trade. O CRB teve nova alta, de 4%, apesar da pequena queda no preço do petróleo, mas com o destaque no minério de ferro, que teve alta superior a 15%.


Acreditamos que os desgastes de lado a lado, na guerra da Ucrânia, possam promover avanços nas negociações bilaterais, com o reconhecimento de questões elementares deste conflito, quais sejam, a desistência pela Ucrânia de ingressar na OTAN e o reconhecimento da soberania russa sobre a Criméia e províncias de maioria russa, possivelmente após consulta plebiscitária. Os custos do conflito trazem desgaste para o governo Putin e miséria para os ucranianos. Caso essa tendência ganhe corpo, deve haver uma acomodação nos preços do petróleo e seus derivados, aliviando um pouco as pressões inflacionárias de curto prazo sobre as principais economias do planeta.


Assistimos o CPI norte-americano chegar perto de 8% ao ano, maior patamar em 4 décadas, o da Espanha chegar a 10% e o da Alemanha ultrapassar o 7%, de forma que o desenrolar do conflito será um condicionante para que o ciclo de aperto monetário possa ser mais suave, ainda que num ritmo maior do que aquele esperado há poucos meses. No Brasil, temos observado sinais marginalmente positivos no que tange a atividade econômica. A maioria dos índices de confiança seguem subindo, assim como a geração de novos postos de trabalho. A reforma trabalhista e outras reformas microeconômicas podem ajudar a explicar esse fenômeno, que ajuda a compensar os efeitos dessa forte elevação da Selic.


Entendemos que o Banco Central demorou um pouco para iniciar o ciclo de alta, por temer os efeitos de um eventual novo lockdown, assim como também demorou alguns meses para calibrar a velocidade, ficando à frente do mercado. Nos parece, nesse momento, que a alta na taxa Selic já se mostra suficiente. Boa parte de nossa inflação tem origem nos choques de oferta e de demanda, que se combinaram. Falar em pouco mais de 10% de IPCA, quando o CPI dos EUA ultrapassou os 7%, nos parece um indicativo de que os ciclos de apertos também poderiam estar mais concatenados.

O Banco Central, entretanto, sinalizou que uma nova alta de igual magnitude já estaria contratada, se não uma ligeiramente maior, a depender dos preços dos derivados. Felizmente petróleo e dólar estão abaixo e, a depender da dinâmica ao longo deste mês de abril, poderemos ter novidades. A curva longa de juros nos indica que o pior parece ter ficado para trás.


No campo político, houve o completo esvaziamento da terceira via com as ações desastradas de Sérgio Moro e João Agripino Dória, levando Bolsonaro e Lula a preservar a divisão do eleitorado. Se por um lado o risco eleitoral havia sido antecipado em mais de um ano, conforme vamos nos aproximando das eleições, constatamos uma recuperação de popularidade do atual presidente, cuja plataforma econômica nos parece mais alinhada com o desenvolvimento econômico do país, além de já conhecida e testada. Lula oferece o risco de volta da social-democracia e desenvolvimentismo, com maior interferência do Estado nas empresas dos mais diversos setores, conforme tem deixado explícito nos seus últimos pronunciamentos. Por outro lado, ao cogitar ter o ex-tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB, como vice e ao conversar com alguns economistas que patrocinaram o Plano Real, Lula faz uso daquele discurso ambíguo, buscando atender tanto o seu público-alvo, quanto alguns segmentos do mercado financeiro e empresarial. Ainda há muita água para rolar e, certamente, os próximos meses trarão novidades.


Os destaques do mês ficaram por conta do forte desempenho nas ações da Vale, com alta de 8%, refletindo a elevação no preço do minério de ferro, mais do que compensando a apreciação cambial, assim como da siderúrgica Gerdau, que anunciou novos aumentos de preços. Também contribuiu para nosso desempenho a alta de 14% nas ações da Sabesp, que além do reajuste tarifário ainda reagiu ao anúncio de que o ex-Ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, será candidato ao governo do Estado de São Paulo. Tarcísio já falou que a privatização da empresa estará entre suas primeiras ações. É visto como o Ministro mais técnico do governo e seu desempenho na pasta não teve precedentes desde a redemocratização do país.


Com os países europeus mais dependentes de combustíveis da Rússia, com a total deterioração de países como Argentina e Venezuela, o Brasil deve continuar sendo visto como boa alternativa para investimentos, tanto pela sua autossuficiência energética e alimentar, quanto pelas boas relações que têm com os países em conflito. O fluxo positivo de investimentos deve seguir contribuindo para a recuperação de preços dos ativos.




Alocação setorial - GTI Nimrod FIA



Atenciosamente,

André Gordon.